• Alex Fraga

Reflexão - Diário de uma Idosa 118, por Joana Prado Medeiros

Quarta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de texto da historiadora, professora universitária, poeta e escritora de Dourados (MS), Joana Prado Medeiros, com seu Diário de uma Idosa 118.


" DAS DIVERSAS FASES DOS PERDEDORES SOB A ÓTICA NEOLIBERAL"


Perdido... Sei reconhecer pelos cabelos, tom da pele e o olhar esfumaçado um perdido. Sei reconhecer pelo colarinho um profissional perdido. Sei reconhecer um estudante perdido quando este não sabe citar nem um autor de sua matéria preferida. Sei reconhecer um lar perdido nas suas panelas foscas que há muito não fazem cozidos. Sei reconhecer a falta de ligação de um casal quando um não sabe que horas o outro se deitou ou levantou-se para o trabalho. Quando um filho chorou e seu rosto e olhar não foi visto. Sei ver a mulher perdida quando seu sapato preferido endureceu, seus vestidos cheiram guardados e não faz questão de ir ou ficar. Sei reconhecer um boêmio perdido e seu copo de boteco e sua vida bailando no tecido purulento e brutal, suas vísceras são o seu travesseiro. Estatelado e perdido o trabalhador almoça e não sabe se irá jantar. O desespero dos comerciantes que mantém as portas abertas porque não tem sequer dinheiro para fecha-las. E a moça perdida que faz sexo sonhando com afeto e carinho. E o jovem moço de boa família que busca a esposa ideal vestindo a roupa de um patriarcado viril, machista, demode sem entender as necessárias mudanças. O perdido não compreende que o suor de seu rosto faz parte da terra e do "todo" e para manter seu lucro fere e mata a fauna, a flora respirando pólvora e sangue. Perdidos pérfidos, estáticos misturam fakes com verdades, sofrem alzheimer social, anemia de valores, diabéticos, incapazes de doçuras não sofrem ressacas morais, sofrem ausências do coletivo e do privado. Misturam vômitos pessoais com os vômitos dos governantes, dos patrões. Deitam no fígado purulento sem noção de classe social. São perdidos apolíticos arrotando armas desrespeitam os direitos humanos e a vida. Não percebem que são massa de manobra do capital. Também, sei da existência dos perdidos extremamente talentosos, cientes e capazes de sacar tudo isso e muito mais...Que enche seus pulmões de arte, cultura, ciência, poesia e desilusão e à moda do poeta "Nada - Nadador". Sei reconhecer quando um olhar ficou parado no tempo e a voz cita frases cristalizadas amorfas. Sei também reconhecer quem cita frases hodiernas e ninguém os compreende. Sei reconhecer sonhos mirabolantes nas pontas dos anzóis que nada pescam...Ah! classe dos perdidos de toda ordem!!! Será que deveria existir um para-raios para soterrá-los? Para me soterrar sou perdida também? ou uma máquina detentora que fosse capaz de resgatar suas/minhas faíscas!!!???!!!...Ou melhor ainda que tal um novo modo de produção humanizado!!!? Aquele tão almejado!!! Aquele sabe, aquele...


( Joana Prado Medeiros ) É Pandemia.

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