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Reflexão - Devaneios em riscos - Eu, o Diário, por Sylvio D Prospero

Segunda-feira no Blog do Alex Fraga é dia de texto de reflexão do escritor e poeta de Curitiba (PR), Sylvio D Prospero, com "Devaneios em riscos - Eu, o Diário.


DEVANEIOS EM RABISCOS - EU, O DIÁRIO. (Véio D'Prospero)


Fiquei eufórico e feliz quando ele me escolheu e me levou para casa, me colocou uma capa de celofane e, na minha primeira página escreveu, "MEU DIÁRIO".

Eu, que era apenas um caderno de brochuras com umas páginas em branco, passava à ser o livro da história da vida dele.

Conheci seus sonhos, seus medos na tenra idade dos dez anos, como quando escreveu "tenho medo de dormir e sonhar com o lobisomem da história" e, "quero ser médico, para salvar todo mundo das doenças".

O tempo foi passando, e como ele eu tambem fui me modificando, de brochuras passando pelo caderno de arame, caderno de capa dura, caderneta, entre tantos outros, mas sempre na primeira página, lá estava, "MEU DIÁRIO".

Seus anos foram passando da infância para a adolecência, quando escreveu, aos 12 anos, "estou com pelos no saco", "hoje vi a calcinha da Meyre, era rosa"; Percebi que ele estava crecendo, quando aos 15 anos escreveu, " a Rosa me deixa sem palavras, minha barriga dói e meu coração bate forte quando a vejo, o que será isto?", fiquei com vontade de lhe dizer, "isto é amor", mas me mantive, apenas aberto; E de repente a juventude, com seus 17 anos, quando relatou "fiz sexo com a Roberta", "batí o carro, estava bêbado, ainda bem que foi pouquinho", nossos segredos.

Quando ele ganhou uma máquina de datilografia, ao completar 18 anos, eu me realizei, passei à ser escrito em letras de imprensa e me senti um livro, o sonho de todo diário.

Quantas alegrias, quantas tristezas, muitas dúvidas, inseguranças, segredos, descobertas, desabafos, ódios, compaixão, que ele foi dividindo comigo, escrevendo em mim.

Veio a informática e eu virei um NOTE, no digital me sentí meio perdido, já nāo sentia suas māos me manusearem, as palavras grafadas errôneamente eram corrigidas digitalmente ou apenas deletadas, mas alí estava eu, sempre participando da vida dele, como "MEU DIÁRIO".

O tempo foi passando, veio a esposa dele, que eu já conhecia e, sabia cada coisas dela!!

Vieram os filhos e eu alí, "MEU DIÁRIO", tendo o conhecimento de tudo, cada detalhe, cada momento, confidente mudo.

Com o passar do tempo comecei a desconfiar de que alguma coisa não estava bem, comecei à passar dias em branco, semanas, meses, apenas alguns comentàrios sem muita concordância, a repetição constante e, por fim apenas poucas palavras, "não consigo dormir", "passou mais um dia", " hoje não fiz nada".

Por várias vezes tive vontade de perguntar o quê estava acontecendo, mas me mantive na minha humilde posição de "MEU DIÁRIO" dele.

Fui me transformando num rascunho sem vida, sem alegria, sem ambição e, foi então que percebi que minha vida também acabara, não havia mais razão da minha existencia, não havia mais dia, então... para quê, "MEU DIÁRIO"???

(Véio D'Prospero)

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