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Prosa Poética - Dia de faxina, por Sylvia Cesco

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • 30 de jan.
  • 2 min de leitura

Sexta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de prosa poética com a escritora e poeta de Campo Grande (MS), Sylvia Cesco, com "Dia de Faxina".


Dia de faxina

Sylvia Cesco


Noitinha dessas, em estado de saudosa e triste calma, deitei-me numa rede e fechei os olhos. Comecei a fazer um cansativo trabalho que não admite a ajuda de diarista: uma faxina, não no meu guarda-roupa, mas no meu guarda-emoções. Afinal, nós, os seres humanos, temos várias. Uns, mais, (o Rei Roberto não repete seu surrado bordão “São tantas emoções”, até hoje?); outros, menos. Levei um susto: estava uma bagunça de dar dó! Além disso, várias estavam roídas de traças. Senti um aperto no peito. Como foi que eu me deixei chegar ao estágio de ACE- Acumuladora Compulsiva de Emoções? Tive vontade de tirá-las todas de lá, dar-lhes uma boa espanada, encaixotar e enviar para um Brechó Beneficente de Sentimentos para que fossem doadas a quem estivesse necessitando. Mas seja por um saudosismo egoísta, seja porque o estado de conservação das minhas emoções estivesse sofrível, necessitando serem lavadas, remendadas e passadas, achei por bem fazer isso numa outra ocasião. Assim, alma à obra, fui pendurando em cabides os modelitos de sentimentos, organizando-os por cores e tamanhos: os brancos como o doce algodão que se comia na infância, embora já estivessem meio amarelados pelo desgaste do tempo; os de emoções azuis, em seus variados tons: celeste, royal, tiffany; emoções floreadas, verdes e lilases. Aliás, me impressionou a quantidade de emoção lilás que tenho guardada. Clara ou escura, sempre foi minha cor predileta. Dos cabides passei para a organização de gavetas com transparentes meias-emoções cor da pele. Havia também uma de cor preta e duas cinzentas e até um par de românticas luvas de rendados sentimentos. Meu guarda-emoções estava ficando nos trinques! Mas era preciso ainda arrumar as caixas de recordações. Olhei-as desconsolada. Eram tantas e tão grandes! Pesadas, quase não as consegui movê-las. Ufa! Deu até vontade de pedir pra alguém ajudar, o que de nada adiantaria. Quem não conhece o ditado: “Quem pariu lembranças que as embale” ou algo parecido? Assim, decidi dar uma pausa na minha faxina e minha memória, passarinha inquieta, voou para o meu tempo de ginásio no Colégio Estadual, quando eu cantava em voz baixa, no intervalo de aula: “Lua bonita, se tu não fosses casada, eu subia numa escada pra ir no céu te beijar”, e minha coleguinha da carteira ao lado repetia : “Te beijar”. Por onde andará Regina Augusta? Dela, só me restou a lembrança de seus cabelos pretos, longos e lisos, e do seu signo, que era Áries. Não suportei a dor das lembranças. Abri os olhos. O riso cheio da lua sorria lá no alto.

 
 
 

1 comentário

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João Francisco
30 de jan.
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Que gostoso e emocionante ler o texto de Sylvia Cesco. Uma prosa poética que consegue por em palavras tantas emoções e sentimentos e nos conduz em uma viagem pelo interior de nós mesmos.  Lindo. Parabéns

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