Projeto - Entre tambores e cordas, uma tradição japonesa busca novos caminhos em Campo Grande


Uma tradição não permanece viva apenas porque é repetida. Ela sobrevive quando encontra quem a escute, aprenda, transforme e transmita adiante. É nesse território entre memória e reinvenção que se insere o projeto “Taikô – O Despertar da Música do Sol Nascente em Campo Grande”, que começa nesta quarta-feira (7), às 19h30, no Teatro do Mundo, na Rua Barão do Melgaço, 177.
A iniciativa leva para diferentes espaços da cidade dois instrumentos ligados à cultura japonesa: o taikô, conjunto de tambores associado a rituais, festividades e apresentações coletivas, e o sanshin, instrumento de três cordas originário de Okinawa. Mais do que ensinar técnicas musicais, o projeto pretende apresentar as histórias que acompanham esses instrumentos e discutir como uma cultura se desloca de seu território de origem sem necessariamente perder seus vínculos com a memória.
Coordenado pelo professor Crystian Proença, o projeto terá sete workshops, além de palestras e apresentações em associações, escolas, faculdades e bairros periféricos. A proposta é colocar em contato músicos, estudantes, iniciantes e pessoas que simplesmente tenham curiosidade por uma manifestação cultural ainda pouco conhecida fora de determinados círculos.
O taikô carrega uma dimensão coletiva particularmente forte. Seus tambores fazem parte de festividades e cerimônias e, em diferentes contextos, funcionam como elemento de reunião e pertencimento. O sanshin conta outra história. Nascido em Okinawa, território com trajetória cultural própria dentro do Japão, o instrumento também atravessou oceanos com os deslocamentos da população okinawana. No Brasil, passou a integrar a experiência cultural das comunidades japonesas e seus descendentes.
É justamente esse movimento — da origem para a diáspora, da tradição para novos públicos — que dá ao projeto uma dimensão que ultrapassa a música. Ao apresentar os instrumentos fora dos espaços tradicionalmente associados à cultura japonesa, a iniciativa coloca em discussão como manifestações culturais são preservadas, adaptadas e compartilhadas em uma cidade marcada por diferentes matrizes culturais.
A memória também aparece na homenagem ao Sensei Hanshin Oshiro, luthier japonês já falecido que construiu centenas de instrumentos. Seu trabalho lembra que a preservação cultural não está apenas nos grandes eventos ou nos palcos. Ela também depende de saberes silenciosos, transmitidos de uma geração para outra — como construir um instrumento, compreender sua sonoridade e reconhecer o significado que ele carrega.

As atividades serão registradas em vídeo e cada edição será encerrada com apresentações de taikô e sanshin. A circulação por escolas, faculdades e bairros periféricos amplia ainda mais o sentido da proposta: levar uma manifestação cultural a públicos que nem sempre têm acesso a esse tipo de experiência e, ao mesmo tempo, permitir que uma tradição encontre novas formas de continuidade.
Em Campo Grande, onde diferentes comunidades ajudaram a formar a identidade cultural da cidade, o projeto aposta na música como território de encontro. O desafio não é transformar uma tradição japonesa em algo exótico para ser observado de fora, mas criar condições para que ela seja conhecida em sua complexidade — como expressão artística, memória coletiva e parte de uma história de deslocamentos que também ajudou a construir o Brasil. Incentivado pelo FMIC 2024, o projeto tem realização da Fundac e da Prefeitura Municipal de Campo Grande e produção de Denize Visintin.





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