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Poesia - Trilogia Zumbi, por Raquel Naveira

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • 16 de nov. de 2023
  • 2 min de leitura


Quinta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de poesia com a escritora e poeta de Campo Grande (MS), Raquel Naveira, com Trilogia Zumbi.



TRILOGIA ZUMBI

Raquel Naveira


I – Princesa de Aqualtune


A um canto do porto,

Num barracão escuro,

Começa o leilão,

A mercadoria:

Negros,

Vindos da África,

Do Congo,

De Angola,

De Cabinda.


– Quem quer comprar a princesa de Aqualtune?

É de nobre linhagem,

Tem dentes alvos,

Cabelo em cone.


De mãos amarradas,

Lá vai a princesa de Aqualtune

Para o engenho,

A moenda,

A casa de purgar;

Na senzala,

Triste,

Noite após noite,

Sonha com a liberdade,

Estrela que zune.


Na lua cheia,

Foge para o quilombo,

Quilombo dos Palmares,

Em novos ares

Dá à luz dois filhos:

Ganga Zumba

E Gana Zona,

Nasce livre, entre palmeiras,

O neto, Zumbi,

Ah! Zumbi-rei

Há de ser aquele que une,

Que pune toda injustiça

Sorri a princesa de Aqualtune.


No céu,

Imune ao destino dos homens,

A estrela zune.


II – Palmares


Palmares,

Reino negro

Na mata virgem.


Ali,

Pisando o solo fértil,

Galgando palmeiras,

Pescando no rio,

Colhendo milho,

Caçando com arco e flechas,

Erguendo choupanas,

Comendo goiaba,

Arrancando raízes,

Viveu um menino livre,

Chamado Zumbi.


Palmares imenso,

Do planalto de Garanhuns

À serra do Cafuchi,

Tudo pertencia

Ao negro Zumbi.


Palmares,

Sonho de resistência

Ao sistema que esmaga

Como os dentes da moenda.


Palmares,

Fortaleza negra

Que voou pelos ares.



III – Zumbi


Zumbi está morto...


Em Recife,

Em Olinda,

Quem pode acreditar?

É certo que o aroma de cana

Está mais enjoativo do que nunca,

Que a maresia acre

Parece guardar o gosto de pólvora

Do terrível massacre

À beira do precipício,

Mas quem seria capaz

De tamanho sacrifício?


Zumbi não pode estar morto,

É o deus da guerra,

O gênio poderoso,

O dono do mar,

O líder implacável,

Venerado,

Temido,

Odiado,

A lenda viva,

O imortal.


Zumbi morto?

Como pode morrer o grande ânimo,

A constância rara,

A coragem personificada?

Sonho não morre.

A semente da liberdade

Vira árvore

Quando regada com o sangue dos estrangulados.


Zumbi morto...

Morrem com ele os quilombolas,

Os espiões,

Os fugitivos,

Os palmarinos,

Os príncipes e as princesas,

O povo humilhado,

A raça negra?


Zumbi morto

Pelos bandeirantes,

Pelos reis,

Pelos governantes,

Pelos assinantes de tratados,

Pelos ricos e meliantes?


Zumbi morto,

A cabeça cortada,

Corroída,

Exposta ao sol e à chuva,

Fincada no poste da matriz.


Quem pode acreditar?

Zumbi morto,

Fantasma-Zumbi,

Assombrando colonos,

Percorrendo as fazendas,

As senzalas,

Onde feiticeiros gemem,

Zumbi morto

É um morto-vivo.


Em Recife,

Em Olinda,

O canto de seu funeral

Mistura-se ao barulho do vento

Nas folhas do canavial.

 
 
 

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