Poesia - Tra bai a dor, por Carlos Magno Amarilha
- Alex Fraga

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-feira no Blog do Alex Fraga é dia de poesia com o poeta e escritor de Dourados (MS), Carlos Magno Amarilha, com Tra bai a dor
Tra bai a dor
Vou prá zuropa
Trabaiá
Que a grana por lá é mió
ou pro isteit
tanto faz
Um vizinho meu
foi no japão
diz que é muito bão
prá quelas bandas de lá
tem emprego adoidado
Por que no Brasil óia
nóis não tem
fui...
In: Poemático Demais.





Demais, muito profundo e sensivel, poema “Tra bai a dor”, a estética da palavra fragmentada funciona como um diagnóstico social contundente. Ao decompor o substantivo “trabalhador”, o poeta opera uma cirurgia linguística que expõe a medula da condição do operário brasileiro: o que resta daquele que trabalha, quando lhe falta o chão, é apenas a dor. A separação silábica não é mero recurso visual; é o retrato de um sujeito que foi partido ao meio pela necessidade de sobrevivência, transformando o “fazer” (trabalhar) em um “sofrer” constante.
A dor que o poeta tenta e consegue, transmitir é a dor da evasão forçada. Existe uma melancolia profunda na forma como o eu lírico enumera os destinos - “zuropa”, “isteit”, “japão”, como…
O poema “Tra bai a dor” opera uma desconstrução linguística e social profunda, partindo do próprio título para revelar a ferida aberta da migração econômica. Ao fragmentar a palavra “trabalhador”, o poeta não apenas brinca com a fonética regional, mas isola o substantivo “dor”, sugerindo que, para o retirante contemporâneo, o ato de trabalhar e o ato de carregar a dor são faces da mesma moeda. A separação silábica antecipa o tema central: a partida forçada e o dilaceramento do sujeito que se vê obrigado a buscar dignidade longe de sua terra.
A narrativa poética utiliza a linguagem coloquial, marcas de um Brasil profundo como “zuropa”, “trabaiá” e “isteit”, para dar voz a um personagem real, desprovido de rebuscamento acadêmico…