Poesia - O último pulo de Juma, por Isaac Ramos
- Alex Fraga
- 24 de jun. de 2024
- 2 min de leitura

Segunda-feira no Blog do Alex Fraga é dia de poesia com o poeta, professor universitário e escritor Isaac Ramos, de Campo Grande (MS), com "O último pulo de Juma"
O ÚLTIMO PULO DE JUMA
(Isaac Ramos)
Nos ventos rajados de junho,
Entre desejos olímpicos,
Uma Juma passou por mim.
E meu coração amazônico
Nem percebeu o que estava por vir.
Eu não matei Juma.
Nem construí
Ciclovia desmoronada.
Não calei a voz de Juruna.
Único índio eleito
Até hoje deputado.
Não fechei escolas.
Não terceirizei o ensino.
Não criei a lei da mordaça.
Mas, por acaso,
Fui às ruas e às praças
E como um pato,
Na lagoa,
Acreditei
Que um dia
Acabaria
Com a corrupção.
Só não sabia que,
Enquanto gritava
E batia
Nas panelas Teflon,
Na surdina,
Inúmeros deputados
Preparavam um banquete
Sob a forma de redenção.
À sobremesa,
Me serviriam como otário.
E nem perceberia
Que estava sendo extorquido,
Como parte do plano
Da nova Nação.
Eu não matei Juma.
Mas sempre assistia
A filmes épicos.
Mostrando
A Roma Antiga
E os escravos,
Ao lado dos bichos
Acorrentados
(O importante
Era o espetáculo!).
Eu não matei Juma.
Mas gostava
De circo, de pão e de vinho.
Nunca liguei
Para o vizinho
Esquisito
Que empunhava
Uma bandeira
Vermelha
E gritava:
“Não vai ter golpe!”.
Eu não matei Juma.
Muito menos Rubens Paiva,
Chico Mendes ou Marighella.
E o que dizer
Das lideranças operárias,
Dos índios
De todas as etnias
Que se suicidam
Ou são trucidados?...
Uma tocha,
Olimpicamente,
Passou por mim.
E a chama vermelha
Nem me remeteu
Ao sangue que escorre
Da goela da onça,
Dos animais extintos,
Do povo distinto.
Muito menos atentei
Para as sucuris
Governantes,
Que estrangulam
Os direitos dos cidadãos.
Eu não matei Juma.
Mas, por algum motivo,
Juma ruge dentro de mim.
E, por isso, o poema me abate.
Só que não me tranquiliza.
Jamais!
22-06-2016
Fotografia: Ivo Lima (UOL)
Curto muito a poesia desse poeta. Parabéns.
Luana Jorge - Fortaleza CE