Poesia - O trem da minha vida, Paulo Portuga
- Alex Fraga

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Quarta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de Conto com o professor, músico, compositor, escritor e poeta Paulo Portuga (Dourados MS), com "O trem do minha vida".
O TREM DA MINHA VIDA
O trem sempre esteve muito presente na minha infância. Meus avós eram ferroviários; trabalhavam na Companhia Paulista de Estradas de Ferro (CPEF), que mais tarde virou a FEPASA – Ferrovia Paulista S/A. Meu avô materno, João, era guarda-trem. Ele era a autoridade máxima na composição e cuidava da segurança. O trem não se movimentava sem a autorização dele. Verificava se todos os passageiros ou cargas estavam embarcados e dava o sinal verde com uma lanterna, bandeira ou apito para o maquinista partir. Meu outro avô, Silvio, era manobrador, responsável por manobrar, guardar e preparar as locomotivas nos pátios e garagens (conhecidas como rotundas ou depósitos). Ambos moravam em casas de vilas ferroviárias, construídas pelas próprias companhias de trem, de forma padronizada, para abrigar seus funcionários e familiares e mantê-los sempre próximos aos trilhos.
Brinquei muito com meus primos andando sobre os trilhos do trem, de pé em pé, equilibrando, como numa corda bamba. Procurávamos os tíquetes, pequenos cartões retangulares feitos de papelão muito grosso e rígido. As cores dos bilhetes indicavam a classe da viagem (1ª ou 2ª classe), se a passagem era de ida, ida e volta, ou destinada a estudantes e operários. Durante a viagem, o chefe do trem passava pelos vagões usando um alicate especial (o furador) para fazer um furo personalizado no bilhete, “cancelando” o tíquete para que não fosse reutilizado. A gente juntava aquele monte de tíquetes como um troféu. Sentávamo-nos nos bancos da estação para ver o trem passar, sentir o vento e o cheiro de ferro e fuligem.
Morar em frente a uma estação ferroviária, segundo uma das filhas dos ferroviários, foi uma experiência incrível. Via-se o movimento das pessoas que chegavam e das que partiam. Sabia-se quem era a pessoa da cidade que iria viajar. Era uma estação de emoções, onde algumas pessoas choravam na despedida de um ente querido, outras sorriam de contentamento no encontro de quem chegava e a decepção de quem esperava alguém que não pegou o trem. Afinal, “chegar e partir são só os dois lados da mesma viagem; o trem que chega é o mesmo trem da partida, a hora do encontro é também da despedida” - cantaria Milton Nascimento mais tarde.
Peguei o trem várias vezes para São Paulo, Campinas, Santos, Jundiaí, Barretos, Rincão, Jaú, Bauru e Araraquara, passando por várias cidadezinhas com suas estações charmosas no estilo europeu. O trem parava e chegavam os ambulantes vendendo biscoitos de polvilho, maçãs argentinas embrulhadas em seda azul, doces, salgados, jornais e revistas, estendendo suas cestas, na plataforma de embarque, em direção às janelas dos trens. Dentro dos trens também passavam carrinhos com refrigerantes e biscoitos. Nos trens de primeira classe, havia vagões-restaurantes para as viagens mais distantes.
Quando eu vim para o Mato Grosso com minha família, pegamos algumas vezes o trem com locomotiva movida a diesel da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB), que conectava Bauru (SP) a Corumbá (MS), na fronteira com a Bolívia. O trecho em Mato Grosso do Sul era voltado ao transporte de cargas, conhecido como “Vaca Verde”. O famoso Trem do
Pantanal fez trechos turísticos de Campo Grande a Miranda, enquanto a continuação, na Bolívia, liga Puerto Quijarro a Santa Cruz de la Sierra. Lembro-me de pegar o Trem do Pantanal em Campo Grande no início da tarde e atravessar o Pantanal durante a madrugada. No escuro da noite, brilhavam os olhos dos bichos. Na extensão para a Bolívia, o trecho era conhecido como Trem da Morte. Havia um ramal desta ferrovia, de Indubrasil a Ponta Porã, na divisa com o Paraguai, que passava por Itahum, em Dourados, MS.
Não me esqueço, até hoje, de uma viagem de volta de Bauru — o maior entroncamento ferroviário do país — para Campo Grande, e do frio que passamos dentro da litorina, que, na época, era o expoente máximo do luxo sobre trilhos. Havia cabines separadas, com beliches de ferro, colchões de napa e cobertores de fibras recicladas, compostos por uma mescla de algodão, lã e materiais sintéticos. Eram aqueles cobertores cinza chamados de “seca-poço”. Não teve jeito: estava muito frio. Geou. Pela janela do trem, tremendo de frio, víamos a grama dos campos coberta por uma fina camada branca de gelo.
A era das ferrovias no Brasil ocorreu entre 1854 e a década de 1950, vivendo seu período de maior auge e expansão econômica entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Esse intervalo áureo esteve profundamente ligado ao ciclo do café e ao investimento de capital estrangeiro, principalmente britânico. Muita gente viajava de trem, pois era mais barato. O trem tem suas vantagens: é mais durável, transporta mais cargas e passageiros, gasta menos energia e é menos poluente. Mesmo assim, o Brasil abandonou as ferrovias nos anos 1950, com a chegada das rodovias, que ampliaram absurdamente o consumo de carros e caminhões, atendendo aos interesses das indústrias automobilísticas e petroquímicas, que ganharam espaço. Os trens foram abandonados e as companhias férreas foram privatizadas, priorizando o transporte de cargas.
Hoje, a malha ferroviária brasileira possui cerca de 31 mil quilômetros de extensão. Mais de 11 mil quilômetros estão desativados, abandonados ou operando com capacidade muito reduzida. Enquanto outros países investem em trens de alta velocidade, nós ainda estamos na Maria-Fumaça. A China lidera com folga os trens de alta velocidade, possuindo uma rede que ultrapassa os 40 mil quilômetros. Um país continental como o nosso, precisa muito de trem.
Recentemente, matei a vontade de andar de trem nos Comboios de Portugal, muito útil para se andar em terras lusitanas. Também fiz uma música chamada Serpenteava o Trem, que é mais ou menos assim:
“De Aquidauana a Corumbá,
serpenteava o trem,
sobre os trilhos, sobre as águas…
na estação,
saudades eu vou deixando,
aperta coração, coração”...
Paulo Portuga, 19/05/2026.





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