Poesia - O Tempo, por Isaac Ramos
- Alex Fraga

- 7 de jul. de 2025
- 2 min de leitura

Segunda-feira no Blog do Alex Fraga é dia de poesia com o professor universitário, poeta e escritor de Campo Grande (MS, Isaac Ramos, com "O Tempo".
O TEMPO
(Isaac Ramos)
O tempo é um risco
O tempo arrisco
O tempo começa a contar no (a)feto da mãe
No ouvido do pai, na ansiedade dos avós e dos irmãos
O tempo é (ar)rebento
Ele não pede, não implora, apenas aflora
A hora que chega, há horas em que vai embora
O tempo presente não (sobre)vive de passado
O tempo futuro (de)pende do agora.
A hora da infância é tempo de (en)cantação
Os primeiros risos, o primeiro “papá” ou “mamá”
O que vier primeiro será bem-vindo
Nem tudo será motivo de festa
Como as noites em claro por algum mal no neném
Mas o tempo e a inocência mudarão num compasso
Quererá um celular ou um desenho no tablete
Talvez não haverá mais carrinho
Talvez não haverá mais boneca
Talvez, contudo, acontecerá rapidamente outros (com)passos.
E virá a pré-adolescência, pulsante e magnética
O tempo, que era imagético, será hipotético
As roupas da hora, a playlist de agora
O começo do distanciamento
O tempo descola da placenta
E dispara para a adolescência.
É tempo de adolescer!...
A vida não para
O tempo emblemático é selfie postal
O mundo é sampleado
O novo é pastiche recriado
E o tempo é de contestações
Cada um se achando o cara
Mas nada é imensidão
O protesto de não ser compreendido
Se refletirá em tapas de um baseado
Em baforadas de um narguilé
Ou alguma coisa chocante para chamar a atenção.
E chega a fase adulta
E virão os boletos, as contas que não fecham
O tempo que não dura
O último manifesto de uma paz que não acontece
As bolsas que sobem, o salário que desce
O discurso da euforia ou o temor do regresso...
Eita, vida besta e dura!
E o tempo faculta à experiência na terceira idade
Se não cuidar do corpo, a mente toma cicuta
Desesperar é se perder no labirinto do tempo
O tempo, enigmático, se esvai na ampulheta
O farol da esperança entra em curto-circuito
O melhor é dar prazer ao tempo:
Viagens que foram adiadas
Retomar conversas interrompidas
– desde que necessárias –
Sentir a fibra de um pôr do sol
A energia vindo em filetes.
O tempo em ondas de energia
Celebra momentos contínuos e alternados
O que antes eram um risco
Pode ser o compasso de um cisco
Ou de um traço
O tempo... ah, o tempo!
É esperança servida em taças de vinho
Melhor balancear o tanino com a acidez
Degustar, degustar, sobretudo
Viver a vida em “Gran reserva”.
(01/07/2025)





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