Poesia - De outro mundo, por Carlos Magno Amarilha
- Alex Fraga

- 6 de mar.
- 1 min de leitura

Sexta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de poesia com o poeta e escritor de Dourados (MS), Carlos Magno Amarilha, com De outro mundo
De outro mundo
Uma anja muito cosmopolitana
E bonita pra caramba!
Desceu a noite no meu quarto
Num papo
Autômato
Auto-regulado
Desígnio divina disse:
- Lucidez.
(in: Poemático D+, 2001, p. 17).





Cosmo
politano
(Demais, multicultural, metropolitano, de outro planeta COSMOPOLITANO)
A noite estava pesada, daquelas em que o silêncio do apartamento parece zumbir nos ouvidos. Eu estava largado no sofá, perdendo a briga contra o sono, quando a densidade do ar mudou. Não houve trovão ou luzes de busca, apenas um deslocamento de vácuo. E lá estava ela.
Não era uma aparição bíblica com asas de penas e harpa; era algo de outra galáxia, mas com um estilo que faria qualquer passarela de Paris parecer provinciana. Uma ‘anja muito cosmopolitana’, vestida com uma textura que parecia feita de fibra óptica e sombra, e ‘bonita pra caramba’, de um jeito que doía o olhar, uma simetria que não pertence a este código genético terrestre.
Ela se acomodou no canto do sofá…
Imagine a cena: você está lá, jogado no sofá, naquele estado de semiconsciência que só o cansaço de um dia urbano proporciona, quando o teto do quarto parece se abrir para o impossível. Não é um clarão bíblico, é algo mais sofisticado, uma incursão de outra galáxia que se materializa na figura de uma mulher deslumbrante, "bonita pra caramba", mas com um brilho que não pertence a este sol. Ela é essa "anja cosmopolitana", uma viajante espacial que parece dominar as etiquetas de todas as metrópoles do universo, sentando-se ao seu lado com a naturalidade de quem acabou de estacionar uma nave na esquina.
O que se segue não é um delírio emocional, mas um "papo autômato". Aqui, a palavra…
O poema apresenta uma cena de visitação quase surrealista, onde o misticismo tradicional é despido de sua aura solene e vestido com as roupas da modernidade urbana. A figura da "anja" rompe imediatamente com a iconografia clássica; ela não é apenas um ser celestial, mas alguém "muito cosmopolitana" e "bonita pra caramba". Esse uso de gírias e adjetivos mundanos humaniza o divino, trazendo-o para o nível do chão, ou melhor, para dentro de um quarto de cidade grande.
A interação que se segue é marcada por um vocabulário que flerta com a cibernética e a automação. Ao descrever o diálogo como um "papo autômato" e "auto-regulado", o eu-lírico sugere uma comunicação que, embora fluida, possui uma precisão fria, quase mecânica.…
De outro planeta
muito bem bolada
Assis de Souza