• Alex Fraga

Poesia - Arrematando meus avessos, por Sylvia Cesco

Sexta-feira no espaço de poesia do Blog do Alex Fraga com a escritora e poeta campo-grandense Sylvia Cesco com : "Arrematando meus avessos".

Arrematando meus avessos

Sylvia Cesco


Minha alma é feita de rendas esgarçadas

mas não as troco nem as refaço

-esse esgarçamento é o que me mantém ocupada,

olhar atento,

cuidando, em vigília, do meu tempo.

Minhas veias, de finas linhas,

não são de seda nem algodão,

mas não há nada que as arrebente

ou que lhes dê nó,

por mais que as desafiem

incautos ou ingênuos bordadeiros,

contumazes de dores parideiros.

Meus nervos já vêm tingidos

por corantes naturais envelhecidos:

- com folhas de resedá

se lhes quero alaranjados

pra alegrar minhas tramas anchas.

Roxo é o jenipapeiro quem dá

e a camomila aos poucos os vai dourando

pra se mostrar à flor da pele alumiando.


As artérias são cerzidas em ponto de arraiolo

que é pra adornar as ramas moleculares

debruadas em entremeios medulares

enroladas em discretíssimos novelos.

E assim, os teares dos meus avessos

são bem mais primorosos que os do meu lado direito:

-estes, displicentemente descuidados,

já não possuem sequer as urdiduras

necessárias a toda tecelã:

Cortei os fios do meu passado e do meu presente

e vou tecendo somente o Amanhã.

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