Poesia - A menina que roubava flores, por João Francisco Santos da Silva
- Alex Fraga

- há 1 dia
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Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de Conto com o médico clínico geral, acupunturista e escritor de Campo Grande (MS), João Francisco Santos da Silva, com "A menina que roubava flores".
A menina que roubava flores
Era uma vez, uma menina que gostava de flores e as roubava de jardins alheios. Fazia pelo prazer do mal feito e para embelezar as casas dos defuntos. Mais medrosa que arteira, ela acreditava em fantasmas e em todas as demais assombrações imagináveis.
Certo dia, uma alma, menos penada que irritada, lhe pregou uma peça. A menina e sua irmã bagunçavam despreocupadas pelas alamedas do campo santo. Feito Robin Hood, elas roubavam dos ricos para dar aos pobres, ou coisa parecida. A brincadeira consistia em deixar todos os túmulos enfeitados com flores. Elas tiravam algumas flores frescas e bonitas dos jazigos mais afortunados e as iam distribuindo entre os túmulos menos floridos. Entretidas que estavam, nem perceberam o tempo passar. Foi o lusco-fusco que deu sinais de ter chegado a hora de saírem de lá. Já devia ser quase seis da tarde, horário de fechamento do portão do cemitério. As duas correram em direção à entrada. Tarde demais, deram de cara com o portão fechado por grossa corrente com cadeado.
— E agora, o que vamos fazer? — Perguntou a mais nova e mais medrosa das irmãs.
Antes que a irmã pudesse responder, ouviram uma voz gutural que lhes disse:
— Quando eu tinha o tamanho de vocês, também gostava de pegar as flores dos túmulos. Eu vinha aqui com a minha prima, escolhíamos as mais bonitas e as roubávamos — as palavras vieram de uma senhora idosa que apareceu de trás de um túmulo.
— Tudo ia bem — prosseguiu a senhora — até que certa vez, eu e minha prima perdemos a hora do cemitério fechar e ficamos presas aqui dentro. Naquele dia, quando surgiu uma velha, bem aqui onde estou agora, minhas pernas tremeram e eu quase fiz xixi nas calças — antes de continuar a história, a senhora fez uma longa pausa, encarando as duas meninas e medindo a reação que provocava nelas — sabe o que a velha falou para mim e minha prima?
As duas meninas negaram com a cabeça.
—Ela disse: “Uma de vocês vai devolver as flores tiradas dos túmulos, enquanto a outra fica aqui comigo até que todas elas estejam de volta no lugar”.
— Eu era mais corajosa que minha prima e, mesmo com muito medo, fui aos túmulos e desfiz a troca das flores. Depois voltei correndo para o portão. Já estava escuro e, para minha surpresa, a velha tinha sumido com minha prima. Depois daquela noite, nunca mais consegui sair aqui de dentro. Desde então, minha sina é ficar nesse cemitério
arrumando os vasos de flores remexidos por criaturinhas sebosas. Enfim, virei uma alma penada — suspirou a senhora.
— Mas hoje é meu dia de sorte! Qual de vocês vai voltar para pôr as flores no lugar?
As meninas saíram em disparada e pularam o muro da frente do cemitério. Caíram de qualquer jeito na calçada da rua, esfolando os joelhos e cotovelos. Depois fugiram sem olhar para trás e só pararam de correr ao chegar em casa.
A zeladora do cemitério ficou rindo da cena. Há meses ela queria pegar de jeito as duas arruaceiras. A senhora já estava cansada de arrumar a bagunça deixada nos vasos de flores. E, pela cara assustada das meninas, elas levariam alguns anos para ter coragem de voltar ao cemitério.




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