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Opinião - Samba de MS virou apenas trilha sonora de sucessos cariocas e paulistas?

Foto do escritor: Alex Fraga
Alex Fraga
há 7 horas
5 min de leitura

Estado que já teve grupos e compositores construindo repertório próprio vive hoje uma cena em que a reprodução parece ter tomado o lugar da criação


Há uma pergunta que o samba de Mato Grosso do Sul deveria fazer a si mesmo: o que ficará dessa geração quando o palco for desmontado? A pergunta não é sobre quantidade de grupos, número de rodas ou quantidade de eventos. É sobre aquilo que permanece depois que o som termina. E, nesse aspecto, o samba sul-mato-grossense parece atravessar um período de preocupante acomodação. Nunca foi problema um grupo cantar músicas consagradas. Samba também é memória. Interpretar Cartola, Nelson Cavaquinho, Beth Carvalho, Fundo de Quintal, Zeca Pagodinho ou qualquer outro grande nome faz parte da tradição do gênero. O problema começa quando cantar os outros se torna mais importante do que tentar dizer alguma coisa própria. E talvez seja justamente aí que esteja a crise atual.


Mato Grosso do Sul já teve uma geração que compreendia que montar um grupo de samba não significava apenas reunir músicos para tocar sucessos. Significava também compor, gravar, criar repertório e disputar espaço para uma música que ainda não existia. Zuera, Pé de Moleque, Samba Som 5, Mistura de Raça, Gente Humilde, Feitiço Moleque, Mel na Boca, Nossa Cor, Só Moagem, Fascínio, Realce, Jeito Moleque, Kitafeito e Só Pra Descontrair fazem parte dessa memória. Eram grupos inseridos em uma cena que, com todas as suas limitações, tinha uma preocupação maior com a construção de identidade. Desses o que parece apenas o Mistura de Raça e o Som 5 estão em atividade.


O Zuera teve “Cantando a Tristeza”. O Só Pra Descontrair, “Jeito Bandido”. O Mistura de Raça, “Pedra do Morro”. O Pé de Moleque, ligado ao saudoso Toniquinho da Viola, também deixou sua contribuição. Não eram apenas intérpretes de um repertório que já vinha pronto de fora. Havia uma tentativa de produzir. E isso faz toda a diferença. Hoje, quando se observa parte da cena, a impressão é outra. Há grupos, há músicos, há bares, há rodas, há eventos. Mas onde está o repertório novo? A questão não é se os grupos atuais são bons ou ruins. Muitos têm músicos competentes e fazem apresentações capazes de atrair público. A questão é mais incômoda: quantos estão realmente construindo uma obra? Quantos compõem? Quantos gravam? Quantos apresentam músicas próprias? Quantos conseguem fazer o público cantar uma composição que não ouviu antes? E quantos têm coragem de colocá-la no centro do espetáculo, mesmo sabendo que o público talvez não conheça?

As perguntas incomodam porque expõem uma contradição. Uma cena musical pode estar movimentada e, ao mesmo tempo, produzir pouco. É possível haver dezenas de grupos e quase nenhuma música capaz de representar uma geração. O problema se agrava quando diferentes grupos passam a trabalhar praticamente com os mesmos repertórios. As vozes mudam, os músicos mudam, os nomes mudam, mas as músicas permanecem. O público reconhece, canta, dança e a festa funciona.

Mas funcionar comercialmente não significa necessariamente produzir cultura. O samba não deveria ser apenas um produto de consumo de algumas horas. É também uma forma de registrar o tempo, contar histórias, revelar personagens e transformar experiências em memória. E Mato Grosso do Sul tem histórias de sobra. Tem fronteira. Tem Pantanal. Tem cidades pequenas e grandes. Tem migrações. Tem comunidades negras. Tem festas populares. Tem trabalhadores. Tem personagens anônimos. Tem conflitos, amores, perdas, paisagens, sotaques e uma mistura cultural que não precisa copiar ninguém para ser interessante.

Por que tudo isso ainda aparece tão pouco nas letras do samba produzido aqui? Talvez porque seja mais fácil cantar aquilo que já foi testado. Uma música conhecida oferece segurança. O público sabe cantar. O contratante sabe o que esperar. O músico reduz o risco. O evento funciona. A composição inédita, ao contrário, exige aposta. E cultura sem risco vira reprodução. Há, felizmente, quem contrarie essa lógica.

O Sampri continua apresentando músicas autorais como “Menino Travesso”, “A Saudade Vem Correndo”, “Resistência” e “Deixa a Menina Sambar”. Gideão Dias possui repertório próprio, com trabalhos como “Safra Boa”, “Só Eu” e “Me Leva”. Darlan Júnior também vem desenvolvendo sua produção. E o Humildemente aparece como uma experiência recente que merece ser observada com atenção. São exemplos importantes porque desmontam uma desculpa recorrente: a de que não existe espaço para autoria porque não existe público.

Existe, sim, uma dificuldade. Mas também existe quem esteja tentando atravessá-la. Por isso, a responsabilidade não pode ser colocada somente sobre os sambistas. Produtores preferem aquilo que garante público. Contratantes muitas vezes contratam aquilo que já conhecem. Eventos repetem fórmulas. Meios de comunicação nem sempre acompanham a produção autoral. Gestores culturais frequentemente celebram a quantidade de atrações sem perguntar o que está sendo criado. E o público, acostumado ao repertório conhecido, acaba reforçando o ciclo.

Todos participam do problema. E, consequentemente, todos poderiam participar da solução. Políticas culturais voltadas à composição, festivais autorais, rodas de compositores, gravações, circulação de novos trabalhos, espaços permanentes para artistas locais e divulgação sistemática da produção sul-mato-grossense poderiam criar um ambiente menos dependente do repertório importado.

Porque não basta colocar um grupo local no palco. É preciso saber o que esse grupo está dizendo. Também não se trata de criar uma espécie de nacionalismo musical de fronteira. O samba não pertence a um Estado. Ele é brasileiro justamente porque se espalhou, incorporou sotaques e se transformou. Mas uma coisa é dialogar com o samba carioca ou paulista. Outra é passar a vida inteira interpretando a música dos outros e chamar isso de identidade.

O samba de Mato Grosso do Sul não precisa competir com o Rio de Janeiro. Não precisa provar que é melhor que São Paulo. Precisa apenas ser capaz de produzir algo que não poderia ter sido feito exatamente da mesma maneira em outro lugar. Esse deveria ser o desafio. Porque uma cena cultural não se mede apenas pelo número de pessoas que sobem ao palco. Mede-se também pelo número de obras que deixa para trás. E talvez esteja aí o maior paradoxo do samba sul-mato-grossense contemporâneo: pode haver mais grupos, mais eventos e mais apresentações, mas isso não significa necessariamente que exista mais samba de Mato Grosso do Sul. Pode existir apenas mais gente tocando samba. São coisas diferentes.

As gerações anteriores, com todas as dificuldades, deixaram nomes, histórias, músicas e referências. A geração atual precisa decidir se quer fazer o mesmo ou se prefere permanecer como excelente intérprete da obra alheia. No fim, a pergunta é brutalmente simples: quando alguém falar daqui a 20 anos sobre o samba produzido em Mato Grosso do Sul em 2026, qual música autoral será lembrada? Se ninguém souber responder, talvez o problema não seja a falta de público. Talvez seja a falta de coragem para criar.

 
 
 

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