Opinião - No Vila Jardim, Fernandinho e Amigos mostram que samba é musicalidade.


O samba não precisa agredir os ouvidos para conquistar o público. Em Campo Grande, algumas apresentações de grupos que se identificam com o samba e o pagode revelam uma questão que vai além do gosto pessoal: a falta de equilíbrio sonoro. Quando cada músico parece querer se impor sobre os demais, instrumentos e vozes disputam frequências, o ritmo perde clareza e a música deixa de respirar. O resultado pode até produzir animação, mas nem sempre oferece qualidade musical. Volume não é potência artística, assim como tocar muito não significa tocar bem.
Uma boa roda de samba exige escuta, dinâmica e compreensão rítmica. O percussionista precisa sustentar o balanço sem encobrir os demais instrumentos; o cavaquinho deve dialogar com o violão e a percussão; as vozes precisam encontrar espaço na harmonia. É essa combinação que produz o suingue, a leveza e a pulsação características do gênero. Quando falta equilíbrio, sobra excesso: o arranjo perde definição, a interpretação se torna cansativa e o público recebe uma massa sonora em vez de uma experiência musical. Saber tocar também significa saber dosar, respeitar pausas e reconhecer o momento de cada instrumento.
Foi com essa percepção que voltei a sair para ouvir samba e conheci o Vila Jardim, em Campo Grande. Lá, encontrei Fernandinho e Amigos. Mesmo sem uma posição favorável para observar todos os músicos, a audição foi suficiente para perceber um grupo mais coeso, com instrumentos bem integrados e sem a disputa por protagonismo que compromete algumas apresentações. Gostei especialmente da sensação de que os músicos tocavam uns com os outros, e não uns contra os outros.
Como crítico e defensor da música autoral de Mato Grosso do Sul, também esperava ouvir uma composição própria. E ouvi. Fernandinho e Amigos apresentaram um trabalho autoral que me agradou, demonstrando disposição para ir além da interpretação de sucessos nacionais. Tocar repertório conhecido é natural em bares, mas a criação própria é o que permite ao artista desenvolver identidade, ampliar a linguagem do gênero e contribuir para a cena musical local.
Enquanto parte do público estava ali para aproveitar a feijoada, encontrei um motivo adicional para estar presente: ouvir música com atenção. E valeu a pena. A experiência mostrou que não é preciso inventar fórmulas nem recorrer ao excesso para fazer um bom samba. A diferença está na musicalidade, não no volume. Uma roda de samba de qualidade depende de ritmo, afinação, dinâmica, entrosamento e personalidade. Criticar o excesso não é rejeitar o samba ou o pagode, mas defender a riqueza musical desses gêneros. Fernandinho e Amigos merecem reconhecimento pela apresentação e pela iniciativa autoral. Voltarei, no Vila Jardim, e recomendo a quem procura samba bem executado. Afinal, quando há música de verdade, os ouvidos não precisam suportar o som: podem desfrutar dele.





Que legal. Gostaria de ir nesse lugar para ouvir esse samba de qualidade.
Luana Pereira - Campo Grande MS
Fernandinho e Banda tem um samba de qualidade, que atende a todos os públicos, parabéns pelo trabalho.
Vou lá para ouvir esse pessoal.
Liana Alves - Campo Grande MS
Que legal saber que alguém está fazendo samba de qualidade em terras onde só tem sertanejo. Parabéns
Márcia Peixoto
Campo Grande MS