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Opinião - MS celebra o artesanato, mas abandona quem vive dele

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • há 1 hora
  • 2 min de leitura

Mato Grosso do Sul gosta de apresentar seu artesanato como símbolo de identidade, tradição e cultura. Na prática, porém, os artesãos enfrentam uma realidade bem menos celebrada: falta de espaços permanentes para exposição e venda, poucas oportunidades e uma política pública que ainda parece tratar o setor como vitrine ocasional, e não como atividade cultural e econômica. Em Campo Grande, essa contradição fica evidente na situação da Praça dos Imigrantes. Durante anos, o local foi referência para artesãos comercializarem seus produtos e manterem contato direto com o público. A promessa de revitalização e entrega do espaço no aniversário da cidade não se concretizou e agora a previsão foi empurrada para setembro. Depois de tantos adiamentos, não surpreende que parte dos artesãos já demonstre descrença.

Não se trata apenas de uma praça fechada ou de uma obra atrasada. Para quem depende da venda das próprias peças, a ausência desse espaço significa perda de oportunidade, renda e visibilidade. O poder público fala em economia criativa, mas deixa justamente os trabalhadores dessa economia sem estrutura mínima para trabalhar. E o problema não termina na falta de espaço. Também é preciso discutir como são distribuídas as oportunidades de representar Mato Grosso do Sul em feiras, exposições e eventos fora do Estado. Artesãos reclamam que determinados nomes aparecem repetidamente nessas ações. A questão não é retirar mérito de quem possui trajetória, mas perguntar quais são os critérios utilizados para selecionar os participantes. Existe edital direcionado para alguns? Há rodízio? Como os artesãos do interior são incluídos? Quantos novos profissionais tiveram oportunidade de participar? Quando há recursos públicos envolvidos, essas respostas deveriam ser transparentes. Mato Grosso do Sul possui uma produção artesanal muito maior do que aquela que aparece nas vitrines oficiais. São indígenas, comunidades tradicionais, produtores urbanos e rurais, jovens e veteranos espalhados por diversos municípios. Essa diversidade, entretanto, nem sempre se transforma em oportunidade. O artesanato não é enfeite de evento nem apenas produto turístico. É trabalho, renda, patrimônio e cultura. Quem vive desse ofício não precisa apenas de discursos sobre valorização. Precisa de espaços, comercialização, divulgação e acesso democrático às políticas públicas. A Praça dos Imigrantes deveria ser um dos símbolos dessa valorização. Hoje, diante dos atrasos e da falta de uma política permanente, corre o risco de representar justamente o contrário. Mato Grosso do Sul quer vender sua identidade cultural. A pergunta é se está disposto a valorizar, de fato, quem produz essa identidade todos os dias.

 
 
 

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