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Opinião - Jorge de Barros e a cultura que chega tarde

Foto do escritor: Alex Fraga
Alex Fraga
há 19 horas
2 min de leitura

A morte do ator, artesão e produtor cultural Jorge de Barros deixa uma lacuna na cultura sul-mato-grossense. Mas deixa também algo que deveria incomodar profundamente quem pensa e administra a cultura no Estado: por que é tão comum reconhecer nossos artistas depois que eles morrem?

Jorge foi um homem da arte. Um desses artistas que insistem, resistem e continuam produzindo mesmo quando faltam apoio, oportunidades e políticas públicas capazes de reconhecer a importância de quem constrói a cultura local. Como tantos outros artistas sul-mato-grossenses, enfrentou dificuldades para sobreviver do próprio trabalho e para encontrar o espaço que merecia.

Em algum momento, deixou Campo Grande e encontrou em Piraputanga um lugar onde conseguiu viver sua arte com mais liberdade e, principalmente, com o reconhecimento dos amigos e da comunidade que acompanhavam seu trabalho. Ali encontrou aquilo que muitas vezes falta ao artista em seu próprio Estado: acolhimento e valorização.

Agora, depois de sua morte, aparecem as notas de pesar. Instituições culturais lamentam sua partida. Amigos relembram sua trajetória. A importância de Jorge passa a ser reconhecida publicamente. Mas é justamente aí que está a contradição. E enquanto ele estava vivo? Onde estavam as oportunidades? Onde estava o apoio? Onde estavam as políticas permanentes de valorização dos artistas que vivem e produzem em Mato Grosso do Sul?

Não se trata de questionar a legitimidade das homenagens. Elas são importantes e necessárias. O problema é quando a homenagem póstuma se transforma no principal reconhecimento que o poder público oferece a um artista. Artista não vive de nota de pesar. Artista vive de trabalho, cachê digno, espaço para apresentar sua produção, editais acessíveis, circulação, formação, divulgação e políticas culturais permanentes. Vive de reconhecimento em vida. Jorge de Barros é mais um exemplo de uma realidade que precisa ser discutida com seriedade. Quantos artistas sul-mato-grossenses estão hoje produzindo, resistindo e tentando sobreviver sem receber a atenção que merecem? Quantos serão lembrados apenas quando morrerem?

É preciso parar de tratar a cultura como uma sucessão de eventos e começar a enxergá-la como política pública. Cultura não pode ser confundida apenas com grandes shows, festividades e atrações de massa. Cultura também é o artista que trabalha silenciosamente durante décadas, preservando memórias, criando, pesquisando, produzindo e mantendo viva a identidade de um povo.

Jorge merece ser homenageado. Mas merecia muito mais: merecia ter sido valorizado enquanto estava vivo. Que sua morte não produza apenas uma nota de pesar. Que produza reflexão. E, principalmente, que sirva para que outros artistas não precisem esperar a própria morte para descobrir que finalmente foram reconhecidos. Porque, quando o reconhecimento chega depois da morte, ele já chegou tarde demais.

 
 
 

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