• Alex Fraga

Opinião – Ilton Silva: um ano sem um dos ícones das artes plásticas do MS

No último domingo (23) completou um ano da morte de um dos maiores nomes das artes plásticas do Mato Grosso do Sul: Ilton Antunes da Silva (Ilton Silva). Esquecido em seus últimos meses de vida, novamente pós-morte é totalmente desprezado pela própria mídia ou mesmo das pessoas ligadas à nossa cultura do município e Estado. É triste saber que a realidade é assim, fica apenas sua obra que com passar dos tempos, valoriza ainda mais. Mas o Blog do Alex Fraga sempre continuará lembrando os grandes nomes da nossa cultura para que eles não sejam esquecidos pelas grandes obras que deixaram.


Ilton nasceu em Ponta Porã, em 1944, mas foi consagrado em Campo Grande. O artista nasceu da união de Conceição Freitas da Silva, a notável artista primitivista que esculpia os “bugres”, hoje elevados à condição de ícones culturais de MS, e de Abílio Antunes, funcionário público federal. Autodidata, Ilton transpirava arte e pintava incessantemente. Inicialmente oferecia suas telas de casa em casa. Mais tarde, instalando seus ateliês em sucessivos locais em Campo Grande, assistia à popularização desses espaços, que se tornavam referências para comercialização de suas obras e encontros de artistas e amantes das artes plásticas.


O conjunto de sua obra revela o peso da presença cultural guarani em Mato Grosso do Sul. Seus personagens são trabalhadores “guaranizados” da fronteira. As rudes feições de ervateiros e peões produzidos pela miscigenação, seus bigodes finos e alongados, cabelos negros e descuidados, olhos vivos, uma indumentária que inclui o chapéu de grande aba, o poncho, as roupas de cores vivas, e às vezes, o próprio revólver e o “machete”, a companhia do cavalo, os vistosos apetrechos de montaria, o exercício das lidas típicas do campo, as práticas cotidianas, como o churrasco ou a roda de tereré, os bailes, as festas e as bebedeiras, os barracos, os ranchos, bem como a paisagem onde se sobressai a campina suavemente ondulada, são elementos expressivos de composição que expõem as condições de existência dos trabalhadores fronteiriços, desvelam as atividades econômicas locais e desnudam as relações sociais vigentes.


As obras de Ilton Silva, centradas na vida dos trabalhadores do campo, podem ser classificadas em, pelo menos, quatro conjuntos merecedores de registro. O primeiro foi aquele consagrado na primeira metade da década de 1980, que lhe assegurou premiações nos salões da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul. O segundo conjunto compreende a produção realizada em Piraputanga, distrito de Aquidauana, MS. Em 1985, Ilton pintou obcecadamente. As telas produzidas são puro desenho. Os movimentos dos pincéis são soltos. Movido pelos ideais socialistas, então exacerbados, o artista conferiu a essa fase um tom panfletário. Predominam as cores quentes. Os instrumentos de trabalho – a enxada, o machado e a foice – são brandidos por homens e mulheres como armas de combate. O terceiro conjunto, referente à temática do trabalho, se configurou em uma exposição realizada na Manhatan Gallery em 1989. Cores ralas esmaecidas resultavam de procedimentos em que Ilton, com panos, trapos e pincéis com água, espalhava e limpava as tintas aplicadas nas telas. O quarto conjunto, talvez o mais brilhante, teve seu resultado exposto na Agência da Caixa Econômica Federal da UFMS em 1993. Afloraram pinturas espatuladas. Manchas de tintas nas telas, com o recurso de estilete ganhavam a forma de peões e de animais, como cavalos e bois.



A série “Cores e Mitos” é sua principal marca artística. Nas telas desta fase são centrais as figuras femininas, pintadas com cores chapadas e contornos “filetados”. Serenas, os olhos semicerrados dessas mulheres denotam submissão. Seres místicos extraídos do imaginário fronteiriço ou figuras fantásticas disputam um plano secundário ao lado de cocares de folhas que ornamentam as mulheres e de carinhas arredondadas. Na composição desses elementos, a imensa quantidade de informações testemunha um duplo movimento que “antropomorfiza” as coisas da natureza, por um lado, e “coisifica” o homem, por outro. Desafios Recentemente, Ilton passou seus últimos meses por dificuldades financeiras e infelizmente faleceu sem ter seu trabalho amplamente reconhecido.

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