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Microconto - Edivaldo e Juventina, por Athayde Nery

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • há 1 hora
  • 2 min de leitura

Quinta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de microconto com o advogado, poeta e escritor de Campo Grande (MS), Athayde Nery, com Edivaldo e Juventina.


EDIVALDO E JUVENTINA


Fazia jogo do bicho. Era um craque. Burro-30, Avestruz-50, Galo-40, Veado-24, e assim ia convencendo seus fregueses de que a sorte tinha chegado. Tinha uma banquinha na praça Ary Coelho, onde, segundo falam, já foi um cemitério. Ele se dizia meio vidente, espirita. Falava que tinha muito morto ainda vagando por ali. Ele ouvia as conversas e via vultos. Dizia que se reuniam mais perto do Chafariz, ou faziam reuniões no Coreto. Sua barraquinha disfarçada de venda de lotomania e outras loterias, óculos, capa de celular, carregadores, e outras bugigangas. Edivaldo era o seu nome. Queria largar esse ramo, mas, os bicheiros sempre foram gente boa com ele. Tratamento dentário e de saúde. Sacolão e tudo mais. Amasiado com Juventina, servidora pública, ganhava bem. Não podia ter filhos. Uma relação bem morna. Arrumou uma amante. A vizinha. Foi descoberto. Expulso de casa. Foi morar com a vizinha de nome Casimira. Os parentes moravam no interior, não tinha filhos. O jogo do bicho começou a escassear porque prenderam os proprietários. Edivaldo se viu emparedado em dívidas. Acabou tendo um AVC (acidente vascular cerebral), ou derrame, quando vasos sanguíneos que levam sangue no cérebro entopem (isquêmico), ou se rompem (hemorrágico), paralisando áreas cerebrais. Estava muito nervoso com as inconstâncias no mercado do jogo do bicho. Caiu no meio da praça feito uma capivara atropelada. Foi hospitalizado na Santa Casa. Ninguém ia visitá-lo a não ser os espíritos da praça. Nem a vizinha, Casimira, quis saber dele. Acabou sobrando para a Juventina. Ligaram para ela do Hospital. Edivaldo tinha ficado totalmente paralisado. “Malemár o animár respira”, como diz o pantaneiro, fazia movimentos com a boca e com os olhos. Acamado irreversivelmente. Juventina o perdoou. Incluiu-o no seu plano de saúde. O levou para casa. Duas enfermeiras, fisioterapeuta e toda infra para que ele continue respirando. Ela ainda o amava, apesar de lhe dar uns bons tapas de vez em quando.

 
 
 

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