Microconto - Bernardo e o Sabiá, por Athayde Nery
- Alex Fraga

- há 3 horas
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Quinta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de microconto com o advogado, poeta e escritor de Campo Grande (MS), Athayde Nery, com "Bernardo e o sabiá".
Bernardo e o Sabiá
Num belo dia de março, em tempos de aquecimento, depois de uma chuva torrencial de 15 minutos, daquelas de inundar os córregos Segredo, Prosa, Sóter e fazendo o rio Anhanduí ficar rebelde que só potrinho novo, dando coice nas suas suas beiradas, derrubando e trincando asfaltos. Inundando Shopping. Ruas e Avenidas se alagam transformando a cidade morena, que é plana, num grande pantanal. Os buracos se fartam de águas e como Gremlins se proliferam causando o caos dos pneus dos carros e motos, que parecendo ter cegos e bêbados no volante, enfrentam os abismos e se tornam a festa dos borracheiros e oficinas. Esses motoristas, especialmente os de aplicativos, xingam a prefeita que nem xinga um Juiz de futebol. Mas as árvores sorriem como crianças no barro. Os passarinhos depois de se esconderem nas frestas dos edifícios, telhados e muros procurando abrigo saem em disparada refrescante. As capivaras se regozijam no lago do Parque das nações indígenas. As araras seguram o céu no grito. A água se enfia tudo, sem dó nem piedade. Campo Grande é um grande campo. Tudo é alegria e tristeza dependendo de quem curte ou sofre num dia molhado.
Passada a tormenta, um sabiá se assenta na borda do sofá do Manoel de Barros, ali na Avenida Afonso Pena com a Rua Rui Barbosa. Um menino chamado Bernardo, de bicicleta, para pra descansar e senta também no sofá. O sabiá olha pra ele e sobe na cabeça do poeta Manoel. O menino olha pro Sabiá e o poeta Manoel começa a falar pro menino.
“Oi Bernardo!
A ciência sabe nomear e classificar os órgãos de um Sabiá
mas não pode medir seus encantos.
A ciência não pode calcular quantos cavalos de força existem nos encantos de um sabiá.
Quem acumula muita informação, acaba perdendo o condão de adivinhar
Divinare!
Os sabiás divinam!
E não se esqueça de brincar e sonhar”
O menino ficou besta de ouvir a estátua falar mansinho e pausado. Parecia o poeta mesmo.
O menino ficou assustado.
Olhou pros lados, não tinha ninguém ali.
Pegou a bicicleta e sumiu num atmo.
O sabiá ainda ficou um tempinho, depois se foi cortando o vento e o tempo.
Bernardo voltava de vez em quando para falar com Manoel.
Manoel nunca esqueceu o Bernardo.





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