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  • Foto do escritorAlex Fraga

Música - Adriano Grineberg canta Dorival Caymmi sem sair do blues com "Eufótico"



*** Pick - Mariana Candeias*** -


Em ecologia, chamamos de zona eufótica a camada mais superficial do oceano na qual penetra a luz solar. É nela onde ocorre a maior incidência de vida marinha, onde as plantas verdes fazem fotossíntese, onde peixes, moluscos e outros animais marinhos vivem. Na zona eufótica, navegamos. É a única, na qual, aliás, a gente pode mergulhar sem correr nenhum risco de morte.


Apropriando-se com toda a licença poética do conceito, o artista paulista Adriano Grineberg chega ao quinto disco de sua carreira celebrando seu momento mais resplandecente. Eufótico traz à materialidade um artista vivendo um momento rutilante: como um corpo vivo imerso no oceano, Grineberg expõe-se à luz solar e faz com que sua música, matéria viva em mutação ao longo de mais de 30 anos de carreira, elabore uma fotossíntese artística, devolvendo à atmosfera um carregamento renovado de oxigênio.


O oceano iluminado no qual Grineberg imerge é a obra de Dorival Caymmi. Sua temática do simples se opõe à complexidade melódica e de construção, compondo um grande desafio ao artista consagrado no universo do Blues que, pela primeira vez, abraça o desafio de mergulhar na canção brasileira e gravar em sua língua pátria.



A escolha pela obra de Caymmi que, num primeiro momento, soou aleatória e baseada em uma escolha pessoal do artista, no decorrer da pesquisa de pré-produção do disco tornou-se precisa e justificada. Como os acasos que nada têm de acasos e sim um quê de magia e desígnio divino, é claro, agora, que tanto as obras dos dois artistas como o perfil dos dois homens encontram inúmeros pontos de contato. Caymmi e Grineberg. A louvação aos trabalhadores do mar da Bahia e o lamento dos escravizados dos campos de algodão do Sul dos EUA. A polirritmia de Caymmi que compreende levadas de muitos outros ritmos e sempre dá a deixa pra algum acorde do Blues. O azul imagético do mar do universo do compositor baiano e o nome da cor que, na língua inglesa, denomina tanto o estado de tristeza da alma quanto o ritmo pelo qual Adriano se apaixonou aos 12 anos e no qual se consagrou, o Blues. Dorival e Adriano. Dois descendentes de italianos filhos de Xangô. O Xamã evocador de Orixás com seu violão e o Xamã evocador dos espíritos da Floresta.


Dorival Caymmi louva o mar em que Adriano Grineberg agora mergulha e se banha de água e luz: eufótico. Geradora de matéria viva renovada, a obra do compositor baiano, agora, é revisitada pelo tecladista de escola

blueseira que, ao longo de sua obra, se caracterizou pelo passeio e costura do seu ritmo primário com tantos outros, tais como o rock progressivo, a música afriacana e até mesmo os Ícaros, cantos sagrados de seu outro berço de influências, o Xamanismo e as medicinas da Floresta. O resultado é uma obra que certamente já é um marco na carreira de Grineberg, delineando a sua ousadia artística e a sua capacidade de deglutir inúmeras influências de sons e culturais, entregando ao mundo uma obra única e que marca uma nova era na carreira de um artista inventivo e que se caracteriza por não ter medo de ousar.


Depois do lançamento dos singles “É Doce Morrer no Mar”, “Promessa de Pescador” e “Canoeiro”, ele lança o álbum completo com visualizer de todas as faixas. O projeto gráfico do projeto, incluindo as todas as capas e e vídeos são de autoria de Sheila Oliveira, que concebeu as imagens, criadas no photoshop através de colagens e outras técnicas. Já as animações são de Flávio Reales e Márcia Caram. As fotos são de Matheus Leite.


Adriano é acompanhado por Edu Gomes (guitarra/violão), Fabá Jimenez (guitarra/violão), Fabio Sá (contra-baixo), Carlos Bala (bateria) e Mestre Dalua (percussão). A produção musical ficou sob a batuta do artista, ao lado de Edu Gomes e com a co-produção de Faba Jimenez. A direção artística é assinada pelo próprio Adriano Grineberg, acompanhado de Amanda Souza. Repertório: A Lenda do Abaeté, Promessa de Pescador, O Vento (essa um feat com Badi Assad), Morena do Mar, Canoeiro, Canto de Nanã, Vou Ver Juliana, Noite de Temporal, É Doce Morrer no Mar.


Mini-bio - Adriano Grineberg é um dos maiores nomes do blues no nosso país e traz em seu currículo gravações e shows ao lado de grandes artistas – incluindo Andre Christovam, Ira!, Wanderléa, Ana Cañas, Filipe Catto, Gilberto Gil, Corey Harris, Magic Slim, John Pizzarelli e Big Time Sarah. Como trabalho autoral já lançou quatro álbuns, cada um se aprofundando numa pesquisa distinta.


Assim foi com sua estreia “Key Blues” (2010), revelando sua identidade própria como músico e compositor e com “Blues for Africa” (2013), um mergulho na música do continente africano. Em 2019 ele lançou “108”, fruto das suas influências do blues com a pluralidade do seu repertório cultural, espiritual e intelectual adquiridos até aquele momento. Em janeiro de 2023 foi a vez de “Xamã” (2023), que trouxe não apenas a sua já conhecida fusão de linguagens musicais dos trabalhos anteriores, mas também o resultado de seu mergulho nos estudos da ciência dos Ícaros, cantos que são a arma curativa, a sabedoria e o veículo da energia pessoal do curandeiro, o símbolo do seu poder. Em 2024, apresenta seu novo projeto, "Eufótico", no qual relê 9 canções praieiras de Dorival Caymmi sob sua híbrida sonoridade.


*** É jornalista ***

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