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Entrevista - Roberto Figueiredo: "A arte é perigosa tanto assim?"

Um dos mais respeitados diretores de teatro do Estado e que há 40 anos dirige um dos grupos teatrais do Estado, o também professor, ator e dramaturgo Roberto Figueiredo (Beto Figueiredo) é o entrevistado desta quarta-feira no Blog do Alex Fraga. Ele fala sobre as dificuldades na cultura, política cultural e seu início quando chegou para Campo Grande ministrar aulas.


Blog do Alex Fraga - Você, Maria Cristina e Ligia Velasques montaram um dos grupos de teatro mais antigos do Mato Grosso do Sul, o "Senta Que o Leão é Manso", que está completando neste mês 40 anos. Como surgiu a ideia e qual é o segredo de durar tantos anos?


Roberto Figueiredo - Bom, eu estava recém saído da universidade onde vivia a fase de um Teatro Universitário, tanto em Três Lagoas (MS) como em Campinas(SP) onde fui fazer uma especialização, e um período de ditadura militar misturada com a teologia de libertação e víamos nas artes e principalmente no teatro a melhor forma de expressar o que a gente sentia. Cheguei em Campo Grande em 1982 e ministrava aulas no Colégio Bosco e na Escola Municipal Bernardo Franco Baís. Por uma coincidência, a professora Maria Cristina Aquino também ministrava aulas nestes dois lugares e a professora Ligia Velasques somente na município. Bom, daí surgiu uma sede de ver espetáculos de teatro, muito difícil naquela época. Foi aí que resolvemos então fazer teatro com os alunos. Sabe aquela história: "Se Maomé não vai a montanha....". E o campo mais fértil e carente eram os alunos do período noturno. Pronto! Nossa primeira peça foi com os alunos do Colégio Dom Bosco onde nos professores junto com os alunos fazíamos parte do elenco. Foi ruim demais!!! Apresentamos só uma vez, já a segunda peça junto aos alunos do Bernardo Franco Bais foi melhorzinha. Apresentamos no Paço Municipal algumas vezes, tanto que o primeiro cartaz foi com esse trabalho. Em 1985 já ficou o grupo somente vinculado a antiga FUCMT e nunca mais deixamos de produzir peças teatrais. Creio que o motivo dessa longa duração que espero dure mais 40 anos, são dois: primeiro trabalhar com acadêmicos que querem e gostam de arte e segundo o apoio da UCDB a quem o grupo sempre esteve vinculado. Vinculado não como uma atividade acadêmica, mais sim como uma atividade comunitária.

Blog do Alex Fraga - No seu modo de pensar, como artista e professor... Defina o que determina a cultura ?


Roberto Figueiredo - Cultura é tudo que o homem produz. Creio que existe duas coisas somente: natureza e cultura. Natureza é o que o homem não interferiu, inclusive o próprio homem (eita). Já cultura é toda produção do homem. Bom, aí temos que falar que cultura não é arte, mas também é arte. Arte é um dos aspectos da cultura, e o teatro é uma das linguagens da arte. E tão importante é a arte que nunca uma sociedade viveu sem fazer arte. Não temos na história da humanidade um povo que não tenha produzido um aspecto da arte. Mesmo que seja por necessidades diferentes, mas ela sempre esteve presente. Isso nos difere dos outros animais creio.

Blog do Alex Fraga - Esteve já como gestor de um orgão governamental cultural. Por que a Cultura sempre é colocada em segundo plano e as verbas são mínimas ?

Roberto Figueiredo - Penso que um pouco por causa da confusão que citei acima. Se pensarmos que cultura é tudo que um grupo ou uma sociedade produz. ela deveria estar em todas as discussões, mesmo seguindo um pouco Paulo Freire. Uma educação deveria estar ligada ao aspecto cultural daquele aluno e não o contrário. Eu fui alfabetizado com o Z de zebra e não com o Z de zarabatana. E aí o pensamento que cultura é somente arte algumas pessoas idiotamente pensam: "eu preciso de médico e não de cantor". Primeiro grande engano, talvez se ouvisse mais música boa precisaria de menos médico. Outra, precisamos dos dois sim, ambos são necessários. A primeira coisa que fazemos ao entrar no carro e ligar o som e ouvir uma música, chegar em casa ligar a TV, como não precisamos de arte? E outro aspecto, a arte é perigosa para governos autoritários,pois ela questiona, faz refletir. Então quanto menos arte melhor para o sistema.



Blog do Alex Fraga - No Mato Grosso do Sul, principalmente nos órgãos culturais, quando se fala em Cultura, o que predomina é a música. Por que setores como artesanato, dança, cinema, teatro não têm essa valorização e apoio ?


Roberto Figueiredo - Para mim a música tem essa posição de destaque por vários motivos. Ela é mais fácil de chegar as pessoas, e agora com a tecnologia tem mais facilidade. Em um micro chip centenas de músicas podem ser ouvidas e armazenadas. Os shows mais fáceis de fazer, mesmo com multidão e em alguns casos o ritmo contagia sem nem necessidade de uma letra, ele já mexe com o corpo. Teatro e a dança por serem as chamadas artes cênicas não tem essa facilidade. O ambiente tem que ser preparado, o contato deve ser ao vivo a cena por isso artes cênicas. E o cinema realmente necessita de um verba bem grande para se concretizar. Claro que existe também uma questão delicada da mensagem que algumas músicas transmitem ou não transmitem, mas é um assunto muito complexo para ser discutido em poucas palavras.

Blog do Alex Fraga - Nesses anos todos de teatro, acredita que tem surgido novos talentos na área ou devido o pouco apoio, muitos acabam não mais seguindo a profissão de ator, dramaturgo...


Roberto Figueiredo - Sim, grandes nomes estão surgindo sempre, isso é bom, novos grupos surgem. Alguns com dedicação exclusiva ao teatro, utilizando o teatro como profissão. Profissão essa que precisa ser discutida, regulamentada, mas nunca questionada.

Blog do Alex Fraga - Em Campo Grande praticamente não existe palcos para exibição de peças teatrais. Como vê esse pouco interesse do setor público? Aponte uma solução para que se possa melhorar o setor...


Roberto Figueiredo - A não existência de palcos teatrais em Campo Grande e mesmo no Estado, é péssimo. É inadmissível termos um teatro público como o Aracy Balabanian, que é a casa do teatro de Mato Grosso do Sul, fechado há mais de 6 anos. O Teatro do Paço fechado há mais de 20 anos. O Teatro da UFMS com limitações e um custo que dificulta apresentações locais. Somos uma capital com quase 1 milhão de habitantes e vivemos uma situação vergonhosa. A solução que os grupos acharam foi fazer seus próprios espaços e adaptar suas peças a estes espaços. Tenho minhas ponderações sobre isso, pois o grupo tem que dividir em produzir arte e sustentar um espaço físico. Fazer peças com limitações cênicas, pois não cabe no palco. Acho que produzir com determinado cenário deve ser uma opção do diretor e não uma falha da estrutura que se eterniza. O poder público se orgulha em afirmar que todas as escolas têm quadras cobertas, legal, mas nenhuma escola tem um teatro de bolso que seja para o desenvolvimento da arte. Porque? A arte é perigosa tanto assim?


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