Entrevista - Raquel Naveira: "Em tudo há sempre uma dose de destino"
- Alex Fraga

- 19 de out. de 2022
- 4 min de leitura
Raquel Naveira é a entrevistada do Blog do Alex Fraga nesta quarta-feira. Ela é uma das principais escritoras do Mato Grosso do Sul e e ocupa a cadeira número 8 da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras que foi por anos do grande literário poético Elpídio Reis. Poeta, professora universitária, crítica literária, Mestre em Comunicação e Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, de São Paulo, autora de vários livros de poemas, ensaios, romance e infantojuvenis. Fala sobre a literatura no Estado, a arte de escrever e novos planos.

Blog do Alex Fraga - Reconhecidamente você é considerada uma das melhores escritoras e poeta do MS e tem reconhecimento nacional. O que está faltando para que possa ingressar na Academia Brasileira de Letras? O porquê da não indicação até o momento?
Raquel Naveira - A Academia Brasileira de Letras é uma instituição cultural, fundada em 1897. É a Casa Machado de Assis, muito forte no imaginário nacional. Sempre me emocionam os dizeres sob a estátua de Machado de Assis, no pátio da ABL : “A Literatura é ideal que eleva, honra e consola”. Isso me inspira. Tenho a Literatura como ideal, estrela, energia. Gosto de conviver entre meus pares das Academias a que pertenço: Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, Academia Cristã de Letras, Academia de Letras do Brasil de Brasília e Academia das Ciências de Lisboa. Acrescentaria o Pen Clube do Brasil. Procuro, na medida do possível, participar de cada uma delas, nos sites, nas revistas e publicações, em encontros virtuais e presenciais. É um reconhecimento. É um convívio especial e tenho os meus colegas de ofício, independente de suas ideologias, como família. A família dos escritores. Seria interessante representar o Mato Grosso do Sul naquele Sodalício. Trata-se de um Estado novo, que nunca teve um representante. Dom Aquino Corrêa e Roberto Campos eram de Mato Grosso. É verdade que escritores magníficos pertenceram e pertencem à Academia Brasileira de Letras, como Guimarães Rosa, Manuel Bandeira, Rachel de Queiroz. Outros não entraram como Mário Quintana, Clarice Lispector e Drummond, entre outros. Em tudo há sempre uma dose de destino, de oportunidade, de momento certo, de escolhas. O que desejo, acima de tudo, é continuar escrevivendo, deixar uma marca personalíssima no mundo.
Blog do Alex Fraga - A literatura e a poesia sempre estão em último plano nos órgãos culturais. Qual a sua opinião sobre isso e o que se deve fazer para alavancar esse setor ?
Raquel Naveira - A comunicação mudou muito. A Galáxia de Gutenberg se ampliou. Se pesquisarmos a palavra “Poesia” no Google, vamos encontrar infindáveis citações e sites. Hoje o poeta pode publicar seus poemas nas redes sociais, nos blogues... Que o texto esteja numa tela não muda em nada o fundo da questão. Trata-se ainda de leitura, embora as modalidades da leitura tendam a transformar-se com os hipertextos e a interconexão geral. É fascinante esta nova relação com o conhecimento e com as formas artísticas. Gostaria de parabenizar você, Alex, pelo seu blogue, dedicado à difusão cultural aqui no Estado e em todo Brasil. O alcance de seu trabalho está fazendo história.
Blog do Alex Fraga - A técnica é tudo, nada, meio caminho andado? Aliás com quem aprendeu?
Raquel Naveira - O meu interesse pelos livros transformou-se naturalmente numa vocação de magistério. Essa vocação levou-me a cursar Letras e a dar aulas por quase quarenta anos. Poesia e Magistério são duas vocações profundamente unidas, interligadas, nascidas na área mágica do silêncio e da solidão, onde os livros se abrem e deixam sair os seus sonhos. Poesia é soma de conteúdo (ideia), forma (palavra) e emoção (toque de beleza e magia, que escapa às análises lógicas). É a reação intensa e breve face ao inesperado, ao surpreendente. É o estado afetivo que faz nosso espírito caminhar da dor, da melancolia à alegria e ao prazer. É difícil chegar a um ajustamento exato de forma e conteúdo e acrescentar ainda a emoção. Mas a arte, o grito, a transfiguração assim exigem. Aprendi na casa de minha infância, casa portuguesa, abarrotada de livros; nos corredores dos colégios; no espelhar-me em professores que me marcaram. E desde sempre sentia que era poeta. Quando eu era pequena, numa noite de São João, olhei o céu da varanda alta: estava coalhado de estrelas e balões coloridos acesos por mechas de fogo. Brilhavam com tal intensidade no orvalho frio que fui tomada por uma forte emoção. Uma vertigem... e desmaiei. Assim, quanto mais aprimoro meu senso estético para a técnica de escrever poeticamente, mais me sinto aquela menina, débil e tonta de emoção diante da beleza e da grandeza do universo.
Blog do Alex Fraga - Você escreve todos os dias da mesma forma, como os pianistas fazem escalas? Todavia "en el momento de verdad" inspiração é tudo realmente?
Raquel Naveira - Escrevo sim todos os dias. Preciso me sentir afiada. Nem que seja uma frase. Uma anotação de tema no meu caderno grande. Sou dramática e sinto sempre um misto de piedade e terror diante do mundo e das pessoas. A inspiração é o “leit motiv”, é aquela palavra, filme, quadro, cena ou leitura que trazem a primeira faísca, o lampejo. Vivo muito inspirada sempre, principalmente quando durmo e sonho.
Faço parte daquela legião de “fingidores” que Fernando Pessoa revelou: “O poeta é um fingidor. Finge tão completamente, Que chega a fingir que é dor, A dor que deveras sente.”
Blog do Alex Fraga - Afinal qual o prazer do texto?
Raquel Naveira - É ordenar o caos interior. Escrever me traz calma e alívio dos meus contrários.
Blog do Alex Fraga- Está sempre com novos trabalhos, livros... Fale da sua última obra e a que está vindo por aí ?
Raquel Naveira - O meu trabalho mais recente foi o livro “Manacá”, recolha de textos em prosa poética. (São Paulo: Penalux). Chegando dois livros novos: “No Mundo Encantado de Luciana”, um texto criado a partir das telas encantadoras e naïves de Luciana Rondon (Campo Grande/MS: Vida) e “Alma de Ipê” (Goiânia: Kelps), um livro de poemas meus só sobre ipês, como se eu penetrasse na essência das árvores e do universo. Com ilustrações de Isaac de Oliveira. Aguardem. Flores, arte e poesia vêm por aí.





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