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Entrevista - Pedro Guilherme: "Artista não deve ficar dependente dos órgãos públicos!".

A entrevista desta quarta-feira no Blog do Alex Fraga é com o artista visual, professor de artes, muralista, pintor e escultor sul-mato-grossense Pedro Guilherme. Ele é presidente da Confraria Sociartista - Associação dos Artistas Visuais Profissionais de MS. Comenta sobre o movimento criado, situação atual na Cultura em Campo Grande e Estado entre outros assuntos relacionados ao meio cultural.

Blog do Alex Fraga - Você é um dos responsáveis pela criação da Confraria Socioartista. Como surgiu a ideia desse movimento?


Pedro Guilherme - A ideia do movimento da Confraria, na verdade foi algo que surgiu naturalmente. Eu sentia muita falta na nossa profissão algo concreto, que fosse mais introspectiva no seguimento das artes. Sabemos que o pessoal do teatro trabalha mais com o coletivo, a música tem bandas, onde os músicos sempre estão tocando juntos, e as artes visuais não. É o artista pintando sozinho apenas. Nós só nos encontravámos quando haviam coletivas ou exposições. Tinha artista por exemplo, que eu conhecia há mais de 30 anos, mas não tinha essa intimidade, pois era só nesses encontros rápidos que estávamos juntos. Salvo um ou outro que tinhamos uma amizade mais de perto. Assim, senti essa necessidade de encontrar mais com todos da Cultura de um modo geral, mas principalmente com os artistas plásticos. O objetivo era para a gente conversar, falar mais a respeito de nosso trabalho, um pouco da Cultura do Mato Grosso do Sul, o que se produz nas artes visuais. Assim entrei em contato com os artistas que conhecia e eram mais próximos. Foram aproximadamente 10. Marcamos uma reunião para que montássemos uma Confraria. Foi colocado esse termo porque é um encontro de amigos que tinha (tem) alguma coisa em comum, e que no nosso caso é a artes visuais. Tivemos essa primeira reunião e depois surgiram novas ideias, fazer um movimento na cidade como fosse ocupação pública e até usamos esse termo. Começamos a fazer assim uma vez por mês nas praças públicas. Eu convidava o pessoal do teatro, da música, capoeira, pessoas amigas em comum. Fizemos o primeiro evento, sem depender do poder público. Sinto que muitos artistas ficam esperando que o lado governamental faça algo e eles mesmos não fazem. Ficam depedendo desses órgãos, que na verdade não vão fazer. Aí fizemos por conta própria por um ano. Após quase chegando aos dois, um artista teve a ideia de dizer que poderíamos transformar esse movimento em uma associação, pois tínhamos um grupo consolidado e organizado. Já existia uma associação, mas eu sentia que iria fortalecer mais ainda a área, pois não estavam dando muito valor. Assim criamos a Confraria Sociartista - Associação dos Artistas Visuais Profissionais do MS. Esse nome "Sociartista" se refere diretamente a aquele artista que gosta de trabalhar com o social. A medida que fomos caminhado, transformou-se em associação e continuamos a fazer eventos, indo para as praças sempre. Começamos a mapear a cidade, fazendo ocupações em nos bairros distantes, algo que não acontecia por parte de quem é de direito e dever de fazer isso, que são os orgãos governamentais. Hoje está tendo algo, mas ainda está faltando...


Blog do Alex Fraga - Fala um pouco desse espaço da Confraria Sociartista... Vocês receberam apoio governamental ?


Pedro Guilherme - Depois de uma caminhada de aproximadamente 4 anos, uma artista que tem um atelier ao lado onde é nossa sede hoje, a Sônia Corrêa (morava ao lado desse terreno abandonado, onde antigamente era a Associação do Bairro Polonês) que na verdade não tinha a Av. Nely Martins - chamava Via Parque. Quando abriram a avenida, passou a ser o Carandá Bosque e aquele espaço ficou meio esquecido. Era um local da prefeitura. Ele estava há 10 anos abandonado, sendo frequentado por usuários de drogas e estava ocorrendo muitos roubos na região. Assim, a Sônia disse para mim: "Por que a Confraria que tem ações sociais, grupo formado, não entra com documentação toda na prefeitura solicitando aquele espaço para uso?". Pensamos assim, que através associação, iríamos trazer muitos benefícios para a Cultura -, pois sabe-se bem, que através dela, vem a saúde, educação, etc. Então um espaço como esse, se desdobra e amplifica. Poderia ser sendo utilizado pela própria prefeitura para um determindo setor. Assim fizemos essa soliticitação que demorou cerca de dois anos. Montamos toda a documentação que era preciso, reuniões por quase dois anos com o secretário de cultura, educacão, no gabinete do prefeito, saúde, planurb, para passarmos por todos setores. Queríamos saber se alguma secretaria não estivesse interesse naquele espaço e se nossa documentacão passaria. Foi longo o processo e após quase dois anos de muita espera, saiu nossa autorizacão para o uso de espaço que hoje é a Confraria Sociartiartista. Não posso deixar de reconhecer que quem nos cedeu e abriu seu gabinete com a parte jurídica para nós foi o então vereador Eduardo Romero, uma pessoa que foi um grande colaborador para que tudo isso acontecesse com relação a nossa sede.


Blog do Alex Fraga - Vejo que o apoio dos órgãos culturais no Estado não é tão intenso como é para a música. Por que isso? Acredita que a valorização ainda é limitada para alguns setores culturais?


Pedro Guilherme - Os órgãos culturais é aquela mesma luta. Nós somos de um período anterior. Hoje temos o FIC, FMIC - que são fundos do governo e do município. Na nossa época não existiam. Após o surgimento deles, muitas vezes foram mal usados. Aliás, por muitas e muitas vezes vimos o mal uso desses fundos de incentivo à cultura. Mas hoje pelo menos temos algo. Por sua vez, muitos artistas recorrem a esses recursos, são dependentes. Aliás já falei isso até em Fórum de Cultura e não fui bem recebido nesse sentido. Mas é isso que sempre falei. Tem artista que se não fossem esses fundos de incentivo, não existiam porque são dependentes dessa verba. Muitas vezes esses eles só existem, aparecem, devido esse dinheiro. Vejo que quando a pessoa é artista mesmo, não fica dependendo do governo. O governo federal, estadual e municipal têm o dever apenas de auxiliar. Todas as grandes manifestações culturais em países desenvolvidos, muitos incentivos são através do governo. Podemos, por exemplo pegar a indústria de Hollywood. O tamanho que é, tem incetivo do governo americano. Então, acho que é um dever do governo estar presente na Cultura. Só que o artista não pode ficar dependente. A gente continua nesta luta e muitos nessa dependência. De certa forma, o espaço da Confraria foi cedido pela prefeitura, mas não foi como uma benevolência, como um cabide...nada disso, foi muita luta e comprovação por ser uma associação organizada.


Blog do Alex Fraga - Faltam espaços para que os artistas visuais mostrem seus trabalhos em Campo Grande ? Não temos visto uma nova geração no setor em Mato Grosso do Sul. Qual é essa dificuldade ?


Pedro Guilherme - Quanto aos espaços para os artistas mostrarem seus trabalhos, faltam sim. Hoje está surgindo novos artistas, por exemplo do lado do "grafite", que eu particularmente acho uma manifestação artística linda. Estamos em construcão de nomes que vão se solificar. Faltam espaço sim, mas estamos nessa luta. Temos a Confraria. O museu que foi a primeira luta nossa, a minha pessoal. Eu tinha um pé atrás e continuo tendo com a política que ele adotava com relacão a escolhas de seus artistas. Para se ter uma ideia, quando a Confraria começou, o Museu de Arte Contemporânea, que está implantado em um espaço maravilhoso, o artista dito regional, não poderia expor. Era somente os artistas que eles entendiam que fossem contemporâneos. Enxergavam a arte contemporânea como um estilo. Aí nos conseguimos com muita luta mudar esse conceito que existia. Solicitamos via Secretaria de Cultura na época, que os artistas regionais tivessem pelo menos uma sala para expor. O então secretário Athayde Nery que abriu essas portas graças a ele temos esse espaço. Temos aqui artistas maravilhosos. Hoje melhorou alguma coisa, mas são passos pequenos. Sinto que há um reflexo grande na falta de nomes em surgir no Estado. O museu ficou por 20 anos com essa política, onde o artista regional não poderia expor naquele espaço. Oras, ele é a "casa do artista", o que nos representa... Quando alguém vem de fora, o secretário de Cultura de Pernambuco, por exemplo, de qualquer lugar no mundo, ele chega e quer conhecer um museu. Então esses representantes não conheciam o que se produzia originalmente no Estado. Isso tem um reflexo muito grande que vamos ainda colher por anos, por essa falta de visão. Temos poucos espaços mesmo. Campo Grande precisa ampliar muito o setor cultural. A gente vê pessoas recebendo esse cargo de Secretário de Cultura, Presidente da Fundação, que deveria ser um cargo técnico, mas que é totalemente político. Muitas vezes pessoas que não entendem nada de Cultura. Já tivemos secretário que não sabia aonde ficava o Museu de Arte Contemporânea. É triste. Às vezes o "regional" é usado de uma forma pejorativa, pois nós temos grandes artistas aqui que falam que é regional, mas se você pegar as falas do poeta Manoel de Barros, o que ele dizia: " O quintal da nossa casa é o mundo". Então... eu tenho por exemplo, o primeiro cheiro que sinto é da guavira. Pois não adianta querer pintar a fruta da Macedönia... Posso até chegar lá, pois faz parte do meu quintal, mas o primeiro cheiro é da guavira. Tenho por natureza começar trabalhando o que sinto, para que seja original e verdadeiro. Pinto meu peixe por causa disso! Onde nasci, na beira do rio Taquari, é um universo que já povou no meu imaginário.


Blog do Alex Fraga - Por que a arte visual continua tão elitizada? Por que não consegue chegar nos bairros, nas comunidades?


Pedro Guilherme - A primeira ocupação que fizemos, nós chamamos de Operação Piracema. Um dia totalemente de Cultura nos altos da Joaquim Murtinho. Eu fiz uma instalação dentro do córrego onde chamei de "Operação Piracema", já com o pensamento de trazer para a sociedade campo-grandense e sul-mato-grossense, uma visão diferente daquela que se colocou na época. Como fazem os peixes na piracema, que vão contra a maré. Justamente para o público percebesse que essa maré não é necessariamente a que devemos seguir o tal curso indicado que o rio que está nos levando, da política, das coisas que acontecem. Nós podemos nadar contra a maré sim. Podemos subir esse rio como fazem os peixes. Não é facil nadar contra a correnteza. Temos que saltar algumas cachoeiras, mas o peixe faz isso lá na cabeceira do rio, desova e dá vida nova naquele ambiente. Essa foi minha proposta para os artistas e fizemos essa operação. Nome dado porque na época, surgido as operações lava jato, etc... que era prender as pessoas que ao final, a gente sabe de toda história e como se desmembrou. Quis chamar de Operação no intuito não de prender e sim libertar as pessoas!


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