Entrevista - Guto Naveira: o grafite como linguagem, identidade e transformação
- Alex Fraga

- há 1 hora
- 4 min de leitura

Para o Blog do Alex Fraga, o artista plástico Guto Naveira fala sobre sua trajetória, o processo criativo e a relação entre arte, paisagem, fauna e cultura de Mato Grosso do Sul. Em uma conversa que também passa pela técnica do grafite e pela experiência de grandes nomes da arte urbana, como Eduardo Kobra, Guto revela sua busca permanente pelo aperfeiçoamento e defende uma produção contemporânea capaz de dialogar com o território e com o público.
Blog do Alex Fraga — Sua obra estabelece um diálogo constante com a paisagem, a fauna e a cultura de Mato Grosso do Sul. Como você transforma esses elementos com uma linguagem visual própria, sem cair na simples representação da natureza?
Guto Naveira — Através dos personagens, especialmente da vaca, que remete à nossa terra e à nossa cultura. Ela funciona como um elo entre o personagem e a obra, permitindo aflorar uma pop art única e despretensiosa. É uma maneira de falar da nossa identidade sem simplesmente reproduzir aquilo que está diante dos nossos olhos.
Blog do Alex Fraga — Suas pinturas apresentam uma combinação marcante de cores, formas e texturas. Como você define essas escolhas e qual é o papel delas na construção da narrativa de cada obra?
Guto Naveira — A cor tem um papel fundamental no contexto da obra. Ela também funciona como um elo que identifica tanto os personagens quanto a obra como um todo. Utilizo técnicas variadas, misturando referências da pop art para construir uma identidade própria.
Blog do Alex Fraga — Ao iniciar um novo trabalho, o que vem primeiro: a ideia conceitual, a composição visual ou a experimentação com os materiais? Como esse processo evolui até a obra final?
Guto Naveira — O processo de criação é complexo. A obra vai sendo elaborada a partir do formato e da técnica, que, durante o processo, vão dando forma ao contexto geral. Muitas vezes, é justamente durante a execução que a obra encontra seu caminho definitivo.
Blog do Alex Fraga — Ao longo de sua carreira, quais foram as mudanças mais significativas na sua produção artística? Existe uma obra ou série que represente um ponto de virada na sua linguagem?
Guto Naveira — Todo artista vai se renovando ao longo do tempo. Existem diferentes fases, e hoje estou vivendo uma nova etapa, voltada para a toy art (uma forma de arte contemporânea que usa o formato de bonecos e brinquedos para misturar design, cultura urbana, moda e artes visuais). É uma linguagem que tem despertado meu interesse e representa mais um momento de experimentação dentro da minha trajetória.
Blog do Alex Fraga — Muitas de suas obras permitem diferentes interpretações. Você procura conduzir o olhar do público para uma mensagem específica ou prefere que cada observador construa seu próprio significado?
Guto Naveira — A obra é um encontro decisivo entre o artista e o público. Cada pessoa pode estabelecer uma relação diferente com aquilo que está vendo. Também tive experiências importantes com esculturas e revitalização de espaços, como a obra da Piraputanga, em Bonito, na praça, realizada pelo artista Cleir Ávila. Essas experiências ampliam a relação da arte com a cidade e com as pessoas.
Blog do Alex Fraga — Depois de décadas de produção, o que ainda o desafia artisticamente? Há alguma pesquisa estética, técnica ou temática que considera essencial desenvolver nos próximos anos?
Guto Naveira — Cada obra tem uma mensagem. O desafio é conseguir transmitir essa mensagem de uma maneira que permita diferentes olhares do público. Continuar pesquisando e experimentando é essencial, porque a arte nunca está completamente pronta.
Blog do Alex Fraga — Mato Grosso do Sul está presente de forma marcante em sua produção artística. De que maneira a paisagem, a cultura, os povos e a biodiversidade do Estado moldaram sua linguagem visual e sua identidade como artista?
Guto Naveira — A busca incessante pela excelência no grafite é permanente. O próprio Eduardo Kobra, mesmo depois de mais de 30 anos de trajetória, diz que continua aprendendo. Isso demonstra a complexidade dessa técnica, que permanece tão atual e contemporânea. É também essa busca pelo aprendizado e pelo aperfeiçoamento que considero fundamental na minha trajetória artística.
Blog do Alex Fraga — Você acredita que sua obra contribui para construir uma identidade artística de Mato Grosso do Sul? Como a arte pode ajudar a valorizar o patrimônio cultural e ambiental do Estado dentro e fora de suas fronteiras?
Guto Naveira — Essa influência vem desde a infância. O Pantanal é minha terra, meu lar, e acabou se tornando um símbolo das coisas que mais amo. Tudo isso está presente na minha maneira de enxergar e produzir arte. Acredito que o artista pode levar essa identidade para outros lugares por meio de sua obra.
Blog do Alex Fraga — Bonito é reconhecida mundialmente por sua paisagem e biodiversidade. De que forma viver na cidade influencia seu olhar artístico e a construção de suas obras?
Guto Naveira — O contato com a natureza e com esses elementos é de suma importância para minha obra e também para minha vida. Viver em Bonito permite uma convivência diária com essa paisagem, e isso naturalmente influencia o olhar do artista.
Blog do Alex Fraga — Você acredita que o cotidiano em Bonito, o contato permanente com a natureza, a luz e a relação entre preservação e turismo transformaram sua linguagem artística? Em quais aspectos essa influência é mais perceptível em seu trabalho?
Guto Naveira — Sim, acredito que tudo isso influenciou muito a minha vida e, consequentemente, minha arte. Foram 14 anos em que tive a oportunidade de pintar para grandes nomes, como Ney Matogrosso, Zeca Pagodinho e o ex-governador André Puccinelli. Essa experiência também foi importante para minha trajetória e para ampliar meu contato com diferentes pessoas, ambientes e possibilidades dentro da arte.





Comentários