Entrevista - Gilson Espíndola: "Precisamos sim de uma política cultural séria !"
- Alex Fraga

- 4 de jan. de 2023
- 7 min de leitura
Ele é um dos principais nomes das artes de Mato Grosso do Sul. Faz parte de uma das famílias musicais do Estado referência na Cultura. Músico, cantor, compositor e produtor Gilson Espíndola, em entrevista desta quarta-feira no Blog do Alex Fraga, fala da sua carreira, das dificuldades e grandes trabalhos musicais. Seus planos para este ano e a questão da Cultura em si nesses anos nos órgãos culturais.

Blog do Alex Fraga - Você faz parte da mais tradicional família musical do Estado, a Espíndola. Como a música entrou em sua vida? Houve influências positivas nesse sentido e desde quando percebeu seu dom para a música?
Gilson Espíndola - Alex, dos 12 irmãos dos Espíndola, meu pai era o caçula. Ele era um músico diletante, animava as festas de família, tocava violão, bandolim, cantava e um grande piadista. Então, desde que nasci ouço meu pai tocar e cantar. Foi onde tive os primeiros contatos com a música, ouvindo boleros, guarânias, polcas paraguaias e samba-canção. Desde pequeno participava das rodas de música em casa, onde meus irmãos mais velhos, Geisa Espíndola e Elpídio Espíndola Junior já arranhavam e cantavam com meu pai. Eu ficava ali tentando me encaixar nos vocais. Talvez foi a minha maior escola de canto que tive na vida, onde eles abriam vozes e eu ficava procurando uma pra eu fazer. Hoje tenho uma facilidade muito grande de abrir voz e com certeza por conta dessa experiência na minha formação musical. Já na infância com toda essa influência natural em casa, comecei a tocar violão olhando o pai e os irmãos. Assim já comecei a tocar, fazendo apresentações nas festinhas da escola até chegar na adolescência onde participei dos festivais de música nas escolas. FICO (Festival Interno do Colégio Objetivo), festivais estudantis, etc... Quando tinha lá meus 13, 14 anos, fiz minha primeira música que achei que poderia ser uma composição que podia considerar canção (risos). Sabe aquela coisa que você se sente confiante de mostrar pra alguém sabendo que está legal, com conteúdo harmônico, melódico e com uma letra que fala alguma coisa que pode tocar alguém... Então nasceu “Sonho de um Caboclo”. Antes já havia feito umas experiências com meu primeiro parceiro, meu primo irmão Gilmar Xavier, com uma música chamada “Natureza”. Mas "Sonho de um Caboclo" foi a primeira que fiz sozinho, a letra e música. Foi o termômetro pra eu medir se realmente era aquilo uma música de verdade (risos). Dalí pra frente eu senti que não poderia viver mais sem a tal da música em minha vida. Aí vieram além de toda a influência que eu já ouvia aqui, Delio e Delinha, Jandira e Benites (os paraguaios que tocavam na Churrascaria Ponteio). Também as influências dos primos mais velhos, Tetê e o Lírio Selvagem, Geraldo Roca, Paulo Simões, Guilherme Rondon, Paulo Gê, etc... No que tange a música urbana de Mato Grosso do Sul já após da separação do Estado.
Gilson Espíndola - Por ser primo de Tetê, Geraldo, Celito, Alzira, teve alguma barreira em entrar na área, já que eles foram os primeiros a se destacarem na música no MS? Se teve, quais foram essas barreiras - ou ainda enfrenta?
Gilson Espíndola - Como eu te disse Alex, meus primos foram a grande influência na minha vida, principalmente de compositor. Geraldo Espíndola é sem dúvida o cara que quando compôs Cunhataíporã mostrou pra essa geração que veio em seguida, o rumo que tínhamos que seguir na música do novo Estado (agora órfão de Cultura). Estávamos num marco zero, como costuma dizer Celito Espíndola. Nossa música surge ali com esses mestres: Geraldo Espíndola, Geraldo Roca, Paulo Simões, Guilherme Rondon, Tetê Espíndola mais adiante, Almir Sater, como o maior parceiro de Paulo Simões, Celito Espíndola, Carlos Colman, Paulo Gê.... só pra citar os que mais me influenciaram na minha formação... São muitos e não da pra colocar todos aqui... Então respondendo sua pergunta, eles só me ajudaram porque me puxaram e me fizeram crescer como músico. As barreiras de ser um ESPÍNDOLA é a melhor que tem, porque nos força a abrir a “caixa de ferramenta”. "Espíndola Canta" foi um projeto que tive a honra de participar e que foi uma prova disso... A cada um que entrava no palco e se apresentava, exigia a quem estava nos bastidores , a abrir a caixa e fazer bonito, pois tínhamos ali feras e sabíamos que era preciso rebolar pra não ficar pra traz (risos). Isso me ensinou muito. Para mim, nunca houve barreira pelo peso do nome ESPÍNDOLA, as barreiras que enfrentamos estão em outro patamar, só como exemplo: “Se num festival já tem Geraldo ESPÍNDOLA, não podemos colocar outro Espíndola... ou vice-versa... infelizmente isso ainda acontece... Que culpa temos de sermos 5 artistas que moram aqui no Mato Grosso do Sul e atuantes na música, com trabalhos próprios, sempre buscando o melhor, produtivos. Essa seria única complicação de ser ESPÍNDOLA (risos).
Blog do Alex Fraga - O que a música representa para você?
Gilson Espíndola - A música para mim é tudo Alex. A música é vida, amor, paixão, alegria, luz, energia, saudade e sustento.
Blog do Alex Fraga - Como vê o processo de política cultural realizada pelos órgãos governamentais ? O que deve ser mudado e também o que foi feito de bom que deveria permanecer ?
Gilson Espíndola - Infelizmente a cultura ainda é usada como moeda de troca. Os órgãos que deveriam pensar e agir em prol à cultura, são entregues como moeda de troca na política partidária. Até acredito que os cargos do primeiro escalão dos órgãos, não deveriam ser necessariamente, pessoas da área, que só entendam daquela especificidade, mas sim uma pessoa que tenha trâmite para viabilizar os projetos que deveriam ser feitos pelos técnicos. Aí sim pessoas das áreas, juntamente com a representatividade da sociedade. Nós pecamos em não discutir e cobrar, o quanto e onde devemos gastar o orçamento da Cultura. Não temos projetos que ofereçam aos alunos nas escolas, a nossa história cultural - saber quem somos, de onde viemos e onde queremos chegar culturalmente. Não preparamos futuros consumidores de Cultura. Quando não dizemos e por consequência, não sabemos quem somos, não damos valor, não estamos incluídos na história, não nos vemos no processo, e quando não nos incluímos na história, a catarse não acontece .... Acredito muito em pequenas e contínuas ações de Cultura. O Estado poderia, por exemplo, contemplar cidades do interior, com espetáculos dos artistas das grandes cidades e o fomento do próprio artista local. Existem os grandes festivais, que trazem artistas do "mainstream", e que efetivamente poderiam contribuir com os artistas da região, por meio de suas experiências, como por exemplo um workshop e criar um momento dos artistas se mostrarem juntos no palco. A valoração do músico regional equiparada ao nacional também nos diminui. O artista nacional não tem despesa nenhuma e leva a maior fatia! Já o músico daqui paga para começar: com editais onde tem que atender as exigências de materiais, correios, documentações, etc. Sugiro que a Fundação e/ou Secretaria utilize da tecnologia pra que o artista tenha um local no site, onde possa ter o seu portfólio e atualizá-lo anualmente, isto implicaria em menor custo e funcionalidade. Afinal a tecnologia está ai pra isso. Depois: paga técnico de som e luz, músicos, translado, comida e impostos. Gera trabalho e movimenta a economia. Portando poderia ser melhor remunerado. Enfim, precisamos sim de uma política cultural séria, que tenha a participação da sociedade, que discuta a questão inclusive da economia da Cultura em nosso Estado, que dê protagonismo ao artista local.
Blog do Alex Fraga - Você lançou trabalhos musicais através de CDs. Conte sobre eles e principalmente sobre esse último que contou com um DVD e show. Por quê não levou esse trabalho para outras cidades do interior do Estado e até mesmo em outros Estados?
Gilson Espíndola - Voltando um pouco ao passado, participei de excelente grupos com pessoas importantes na minha vida musical. Em 1977 tive uma participação no Grupo Terra onde convivi com Carlos Colman, Roberto Espíndola, Aluizio Jorge, Orlando Brito e Pedro Ortale. Em 1978 formamos o Grupo Benvirá: Paulo Gê, Pedro Ortale, Marcos Mendes, Antonio Porto, Gilberto Verardo e com a passagem dos flautistas Celso Bico Doce e Paulo Nering, um carioca que passou por aqui. Depois dessa experiência como músico nesses grupos onde tocávamos nossas músicas, fui convidado pra gravar meu primeiro trabalho em CD na coletânea Mato Grosso do Som - um mapeamento da música do MS, onde gravei minha primeira música “Vagalume”. Em 1998 veio meu primeiro trabalho, o CD Tudo Azul, onde gravo as músicas que fazíamos na época do Benvirá e canções mais recentes da época. Em 1999 gravo meu segundo CD o “Mosaico”, onde gravo somente artistas da família ESPÍNDOLA, fazendo assim uma homenagem aos meus primos, minha família, minha grande referência musical. Em 2018 gravei meu primeiro DVD onde conto musicalmente a minha história musical e principalmente meus 40 anos como compositor. A ideia era trabalhar o DVD fazendo show pelo Estado e quem sabe pelo Brasil, mas veio a pandemia e tudo foi ao chão... o DVD não chegou no prazo porque os aeroportos todos estavam fechados, os acrílicos viam da França e não chegaram, quase que dá um B.O no FEMIC por causa de prazo de entrega... enfim... estou com os DVD’s em casa guardados pra quem sabe, nos shows que vão surgir esse ano de 2023, com a cultura nacional no seu devido lugar, possamos levar esse produto, que diga-se de passagem ficou lindo! Vocês já podem conferir no meu perfil do YouTube- Gilson Espindola. Tem todas as músicas, Cds e DVD, mas se quiser um presente, quiser dar um presente, pode adquirir o DVD comigo no direct do meu face ou Instagran.
Blog do Alex Fraga - Chegamos em 2023, quais os planos do cantor, músico e compositor Gilson Espíndola para esse ano?
Gilson Espíndola - Alex, pra esse ano abri um pouco mais o leque de atuação...Mas sempre na música regional, nas minhas músicas enfim. Sempre divulgando o nossa produção musical e procurando falar de nós pra nós mesmo entende? Tentando mostrar pra nossa gente quem somos na intenção que aconteça a catarse e o povo se inclua como o sujeito protagonista da história... Estou com um trabalho com Pedro Ortale de dois violões 6 e 7 cordas que procura contar essa trajetória da música urbana do MS. Outro trabalho muito legal que começamos ano passado, é o show “Gilson Espíndola entre guitarras”. Um trabalho autoral, uma releitura das músicas com arranjos lindíssimos dos guitarristas Gabriel Andrade e Ton Alves, dois grandes talentos da música aqui em nosso estado. Fora isso, sigo firme com o grupo Chalana de Prata, uma honra de tocar com esses monstros sagrados da música do Mato Grosso do Sul.





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