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Entrevista - Carlos Colman: "Ficamos entristecidos com a pouca valorização do nosso trabalho!"

Ele é um dos principais músicos do Mato Grosso do Sul e um dos fundandores de um grupo regional que fez história do Estado: Grupo Therra. Com um trabalho solo consagrado Carlinhos como é conhecido por todos, é referência para muitos artistas. Em entrevista ao Blog do Alex Fraga ele fala sobre a pouca valorização dos artistas da terra, verbas governamentais para a Cultura e novos trabalhos em sua carreira.

Blog do Alex Fraga - Você é talvez o único artista do Mato Grosso do Sul que desde o início não fugiu de suas raízes e sempre mostrando suas composições. Como vê esse quase "desaparecimento" de músicas autorais no Estado ?


Carlos Colman - Composições são como opiniões – se você não diz, ninguém sabe o que você pensa. O que você pensa é o seu conteúdo. A rapidez e a cultura líquida impetradas pelo globalismo tecnológico contribuíram muito para isso. Antigamente, na era pré-computador, as canções eram passadas de boca em boca. Sempre havia um interesse em saber o que um e outro compositor estavam criando. Hoje é tudo muito rápido e as pessoas tendem a desacreditar que a sua música possa ser ouvida e que possa ser importante, o que resulta em uma certa “timidez intelectual”. Por outro lado, é possível que haja muita gente mostrando coisas novas e pouca gente ouvindo


Blog do Alex Fraga - Fundador de um dos grupos mais renomados que o MS teve, o Grupo Therra. Conte um pouco a história e por que depois de tanto tempo optou por fazer uma carreira solo? Outra coisa, porque não quis ir para os considerados grandes centros, como São Paulo e Rio de Janeiro quando teve essa oportunidade..


Carlos Colman - O grupo Therra foi fundado por mim e pelo Roberto Espíndola. A idéia inicial era musicar as poesias do Roberto – eu ainda não compunha. Devido à dificuldade de harmonizar as músicas, em razão do meu parco conhecimento musical na época, decidimos interpretar canções que já existiam e que já tinham sua harmonia definida. Começamos pela música andina, em parte pela sua simplicidade e influenciados pelos vários grupos representativos desse gênero que visitaram nossa cidade (Tarancón, grupo Água e o próprio Tupyara, que foi um grupo criado pelo Almir Sater). Com o tempo, as canções andinas deram lugar a clássicos da música popular brasileira, principalmente a música regional. A essa altura, eu já começava a compor.

Segui o caminho solo devido ao desgaste natural que todo grupo sofre. À época eu queria imprimir a minha maneira de fazer música, sendo que os outros integrantes do grupo tinham também sua visão particular. Não fui para os grandes centros tentar a carreira artística lá fora porque acreditava muito no mercado regional de trabalho, ou seja, acreditava que as coisas poderiam acontecer aqui no nosso Estado.


Blog do Alex Fraga - Lançou seu trabalho juntamente com sua parceira Ana Paula Duarte, intilado "Parceria". Como foi todo esse processo de após um tempo, retornar com suas novas composições? Vem novo trabalho ainda esse ano ?


Carlos Colman - Em princípio, eu não queria mais gravar. Tinha muita coisa pronta, mas estava meio desiludido com o rumo que a música estava tomando no Estado. Gravamos o álbum Parceria, eu e a Ana, por insistência da Ana, que via muita qualidade no que eu tinha guardado. Em meio à pandemia, lançamos o single “A Ponte”, com clip produzido por minha enteada, Marina Duarte. Ato contínuo, iniciamos a produção do próximo EP, sendo que já temos duas músicas gravadas (Nem Pensar e Andar ao meu Lado). Atualmente, trabalhamos com a escolha de pelo menos outras duas canções para compor um EP. Na verdade, isso está dando muito trabalho, pois tenho muitas composições novas e está difícil escolher.


Blog do Alex Fraga - Sua canção “A Ponte” abriu a “Coletânea MS Alfabetiza”, coleção didática distribuída para toda a Rede Pública Estadual e para as escolas municipais do MS. Para você como um artista com mais de 40 anos de carreira, qual foi a sensação de atingir essa moçada?


Carlos Colman - Quando um artista compõe, o que ele mais deseja é alcançar o maior número de pessoas possível. E quando você chega na criança, é uma realização, porque de um certo modo, você está chegando na geração que pode mudar o mundo, que vai construir o futuro. É a coroação de todo um trabalho.


Blog do Alex Fraga - Antigamente os órgãos culturais não tinham verbas específicas para ajudar os artistas e mesmo assim tinham shows e bem mais do que hoje que tem dinheiro de FIC, FMIC entre outros. Acredita que muitos desses "novos" só produzem quando há verba pública? O que acha que realmente acontece?


Carlos Colman - Por um lado, é positivo constatar que a cultura vem ganhando mais espaço nos orçamentos públicos. É preciso, porém, distribuir melhor essa verba, contemplando diferentes vertentes musicais, além de outras linguagens artísticas. Quanto a produzir apenas quando há verba pública, vejo muita gente boa completando do próprio bolso o orçamento estipulado, para dar o seu melhor. Vejo muita produção independente e muita gente fazendo verdadeiro milagre para mostrar a sua arte. Nesse sentido é que penso ser primordial que se chegue a uma verdadeira política pública cultural.


Blog do Alex Fraga - Qual a sua opinião sobre a contratação de artistas de renome nacional em festivais, eventos governamentais com cachês altíssimos, enquanto os da terra não são valorizados como deveriam. Há artistas que desembarcam no Estado, cantam uma hora e meia e vão embora, não deixam absolutamente nada e não contribuem com a cultura local. O que acha? Como deveria ser esse processo de escolhas?


Carlos Colman - Nós que trilhamos essa estrada há tanto tempo, que demos e damos nosso melhor pela cultura do Estado por vezes ficamos entristecidos com a pouca valorização do nosso trabalho, principalmente do ponto de vista financeiro. Mas não somos contra a contratação de artistas nacionais. Quanto ao cachê que eles ganham, o mercado assim o estabeleceu. Vi por exemplo os valores contratados para diversos artistas nacionais que se apresentarão em Bonito e estão dentro da realidade. Porém, gostaríamos que os valores pagos aos músicos da terra refletissem a relevância dos seus anos de estrada, do seu trabalho. Afinal, os cachês representam a importância que é dada pelos governos à cultura regional.

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