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Entrevista - Afonso Rodrigues: "Bonito Blues & Jazz tem aproximado artistas dos países limítrofes!"

Um cara de visão e sempre teve a preocupação em levantar e oferecer Cultura para o público sul-mato-grossense e de uma maneira mais especial, através de seus vários projetos que idealizou, como Cine Clube Uirá, Espaço Cultural Guató, Festival de Inverno de Bonito e o próprio Bonito Blues & Jazz Festival que entra em seu décimo ano agora em junho nos dias 8, 9 e 10. Em entrevista ao Blog do Alex Fraga, o douradense, produtor cultural e empresário Afonso Rodrigues Jr, atualmente residindo em Campo Grande (MS), fala um pouco de sua história e novos projetos que estão por vir como o recente, o “Circuito Cultural Guarani Conecta MS”.


Blog do Alex Fraga - Como um engenheiro mecânico automobilístico foi parar na área cultural? Sua primeira produção foi logo com show de Almir Sater? Fale um pouco de sua história...


Afonso Rodrigues Jr. - Moramos em Dourados e sempre íamos passar as férias escolares em Cuiabá, cidade de origem da minha mãe, e meu tio Walter Carneiro estudava no Rio de Janeiro e nesse período ele também ia pra Cuiabá e trazia vários discos quando colocava os sobrinhos na sala da casa para escutarmos músicas e dançar e tal. Isso marcou bastante o gosto musical pela boa música, pois ele sempre teve um gosto musical apurado. Foi quando conhecemos a nata da música brasileira como Simonal, Renato e seu Blue Caps, Trio Ternura, Bob Fleming e muitos outros.

Em Dourados, aos 11 anos, atravessando a Praça Antonio João para levar minha irmã à escola de piano, escutei "Alegria, Alegria" do Caetano Veloso (1967) e pedi ao meu pai dinheiro pra comprar o compacto simples com a gravação do Festival da Record e aí comecei a adquirir discos dos compositores brasileiros.

Em 1972 vim para Campo Grande estudar no Colégio Dom Bosco onde conheci Almir Sater e tive conhecimento com as bandas de rock ’n roll através de colegas de sala quando trocávamos discos e conhecimentos, período frutífero de novas amizades que perduram até hoje.

No ano de 1975, mudei pra São Paulo para com o objetivo de cursar Engenharia Mecânica Automobilística na FEI (Faculdade de Engenharia Industrial), quando conheci o colega de sala, Agnelo Hellou, que estudava trompete com o grande músico argentino, Hector Costita. Ele me apresentou os ícones do Jazz mundial como Miles Davis, Return to Forever, Wheather Report e por aí afora. Ao mesmo tempo, outro engenheiro, Hiroshi Fujii, mostrou-me o que era o Blues com sua simplicidade rítmica, porém com uma expressão de sentimentos poderosíssima. Fiquei maravilhado com aquele som.

Após um período de trabalho na engenharia da Chrysler Automóveis e depois Volkswagen Caminhões retornei para Dourados para assumir negócios da família. Em julho de 1983 encontrei com Almir e perguntei à ele por que não ainda não tinha feito show em Dourados? Ele respondeu: “Ninguém convidou ainda!". Aí combinamos e fizemos a primeira apresentação dele na cidade em agosto de 1983. Peguei gosto pela coisa e a partir de então comecei a produzir vários eventos, como o Cine Clube Uirá (coordenado pelo Luis Carlos “Chico” Rossini), o Espaço Cultural Guató dedicado às artes plásticas, sempre no Alphonsus Hotel.

No início dos anos 90, abri a CD Point, comercializando CDs e DVDs, quando uní o hobby ao negócio, pois sempre fui “rato de loja”, garimpando discos em toda loja de discos que eu visitava. A partir dessa iniciativa eu incremento a produção cultural com diversos shows dos artistas que lançavam seus novos discos na loja, que foi o caso do Chamamé quando lancei em Dourados, Grupo da Terra, Chama Campeira, Grupo Zíngaro e muitos outros, mas sempre querendo trabalhar com Blues e Jazz que são os estilos musicais que mais me agradam.

Meu amigo Waldir Guerra era proprietário da Terra FM e através do seu filho, Alan Guerra, patrocinei a criação do programa Terra Blues em que eu fornecia os discos e literatura a respeito do Blues para o apresentador Pieretti e assim cada vez mais eu me aprofundava no tema.


Blog do Alex Fraga - Muitos se esquecem, mas pelo que se sabe você foi idealizador do Festival de Inverno de Bonito. Conte como surgiu a ideia ?


Afonso Rodrigues Jr. - No início do ano 2000 aconteceu várias edições do Temporadas Populares no MS. O produtor de Brasília, Zelito Passos, hospedava no Alphonsul Hotel durante as edições de Dourados e eu já tinha o La Paloma Residende, em Bonito. Foi quando conversando com Zelito, o convidei para conhecer Bonito. Durante a visita apresentei a ideia de um festival multicultural a exemplo de outras cidades turísticas, pois a cultura e o turismo “andam de mãos dadas”. Ele concordou imediatamente e disse que eu precisava conhecer o Nilson Fonseca, organizador do Temporadas, e apresentar ideia a ele. Assim marcamos um encontro logo que o Nilson retornasse para o MS, pois ele residia em Brasília na época. Marcamos esse encontro no La Paloma Residence e ao conhecer Bonito, Nilson ficou encantado com a ideia e disse: "Vrecisamos apresentá-la ao governador Zeca do PT e se ele gostar da ideia tocamos adiante".

Esse encontro aconteceu por intermédio da Ângela Costa, secretária de Cultura da época, num domingo na casa do governador, que imediatamente aprovou a ideia nos autorizando a desenvolver o projeto que o governo bancaria os custos. Assim começou em julho de 2000 a primeira edição.


Blog do Alex Fraga - Festival de Blues e Jazz em Bonito. Fale sobre o início de tudo...


Afonso Rodrigues - Em Bonito fiz vários eventos simultaneamente aos realizados em Dourados, porém nada ligado ao Blues e Jazz. Eu estava ficando saturado dos eventos que realizava, mas não me satisfazia quanto ao estilo musical. Aí pensei: "Vou fazer algo que eu goste e receba amigos e simpatizantes da música".

Foi quando idealizei o Bonito Blues. Fui à São Paulo conversar com meu amigo, o guitarrista Fábio Brum, que adorou a ideia. Fizemos a primeira edição em novembro de 2012 e mais duas outras aconteceram com nomes como Fábio Brum, Marcelo Watanabe, Ivan Márcio, Giba Byblos, Caio Carvalho e outros, sendo apenas uma noite de apresentação. Várias pessoas do estado do MS e de outras regiões me estimularam para que fizesse mais de uma noite, o que me levou a criar o Festival com três noites de apresentações, pois tínhamos uma diversidade de artistas para mostrar seus trabalhos e o respectivo público ansioso por novidades. O que provou ser perfeitamente viável a realização do Bonito Blues & Jazz Festival, não sem dificuldades e estamos chegando na 10ª edição neste ano.


Blog do Alex Fraga - Nos dias 8, 9 e 10 de Junho acontece a décima edição do festival. São 9 atrações. Fale sobre elas. Têm artistas do Brasil, Paraguai e Argentina...


Afonso Rodrigues Jr. - Nos últimos anos a programação do Bonito Blues & Jazz Festival tem se aproximado dos artistas dos países limítrofes, caso do Paraguai, desde 2018, e no ano passado com a participação de atrações da Argentina. O que nos levou a isso foi o fato do MS ter uma influência cultural muito presente no nosso cotidiano com a música, gastronomia e hábitos diários, como o tereré entre outros. Aí vimos com naturalidade essa aproximação inserindo na programação bandas “hermanas” com uma qualidade musical excepcional e sentimos a necessidade de apresentá-las ao nosso público.

Desta forma, teremos uma noite exclusivamente da moderna música paraguaia, com a participação da Band’Elaschica composta por 10 mulheres musicistas. Seguida pela VPL Blues, banda que tem como saxofonista, gaitista e vocalista, Dominique Bernal. Ele é conhecido da plateia bonitense, pois será sua quarta participação. A noite encerra com o ícone Toti Morel, na bateria, acompanhado das suas duas filhas Julieta e Gloria.

A abertura do festival este ano será com o El Trio, dos músicos Gabriel Basso, Gabriel Andrade e Adriel Santos que são os grandes intérpretes do jazz sul-mato-grossense. Continuará com a música instrumental brasileira na figura do Walter Pinheiro, paulistano que mostrará nos metais a suavidade das suas interpretações. Terminando, a noite dedicada à música instrumental, o Boldrini Quarteto, de Curitiba, formação liderada pelo contra-baixista José Antonio Boldrini, um dos mais conceituados músicos do país no instrumento.

A última noite inicia com o guitarrista argentino Rula Cancino, com sua banda Rula y los de La Esquina, de Misiones. Um dos maiores guitarristas do nordeste argentino que mostrará seu blues pujante e que retrata o cotidiano da sua região.

A 10ª edição do Bonito Blues & Jazz Festival encerra com o guitarrista carioca Big Gilson, guitarrista, cantor, compositor e um dos maiores nomes do gênero do Brasil, já tendo tocado e recebido elogios do mestre B.B. King, que disse: “Quando vejo um jovem tocando blues tão bem assim e tão longe da América, sinto que minha missão nesta vida está cumprida”. Com mais de 30 anos de estrada Big Gilson encerrará o Bonito Blues & Jazz Festival em grande escala.


Blog do Alex Fraga - Dentro do festival acontecerá um encontro interessante chamado Circuito Cultural Guarani Conecta Mato Grosso do Sul. Como será ? E qual o propósito ?


Afonso Rodrigues Jr. - Em janeiro deste ano fomos convidados para participar da criação da Associação Circuito Cultural Guarani, o que foi efetivado em março/2023 com a participação de produtores culturais da Argentina, Brasil, Chile e Paraguai. O Circuito Cultural Guarani tem por objetivo a integração cultural entre os artistas desses países proporcionando intercâmbio entre os artistas por meio de eventos culturais a serem realizados pelos integrantes da associação nos países participantes.

O encontro “Circuito Cultural Guarani Conecta MS” no próximo dia de 10 junho, sábado, durante o Festival e objetiva a participação das autoridades do setor cultural do Mato Grosso e do Mato Grosso do Sul, bem como Ministro da Cultura de Misiones, de Formosa e Corrientes, na Argentina e Asunción, Paraguai.

O Circuito Cultural Guarani vem de encontro a criação da Rota Bioceânica, que ligará os quatro países na questão econômica e turística, e pretende alavancar a participação cultural nessa região da América do Sul.

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