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Entrevista - "A história de Dourados é uma das mais extraordinárias do Brasil", diz escritor

Entrevista do Blog do Alex Fraga com o professor, escritor e poeta dourandense, Carlos Magno Amarilha que fala sobre sua nova obra intitulada "A História de Dourados - A Gênese de sua Fundação -1914 a 1943", será lançada nesta terça-feira (24), às 19h00 na Câmara Municipal de Dourados.

Blog do Alex Fraga - Você sempre foi um incentivador das letras em sua cidade. Escrever sobre a história de Dourados, o que fez pontuar esses anos em livro? Por que resgatar esse período?


Carlos Amarilha - Para que as novas gerações possam reconhecer que para chegar aonde chegamos, o caminho vem sendo construído através do tempo, com muita luta – repleta de vitórias e derrotas, alegrias e sofrimentos. Pois a valorização dos feitos dos que vieram antes de nós é o reconhecimento do muito que devemos aos nossos antepassados. O ser humano é um ser pertencente a um espaço e também em um tempo. Com isso, estabelecemos relações com as coisas, lugares e pessoas que anteriormente ocupavam o mesmo espaço, no qual foram erguidos templos, casas, prédios, estádios, ruas, jardins e praças. Para isso temos a história que nos lembra do passado e deixa-nos em contato com um tempo que se foi e que nos lembra que se temos a liberdade de hoje é porque muitos perderam a vida para sermos livres.

A ideia do livro foi o resultado de pesquisa sobre as identidades douradenses, realizada entre os anos de 2013 a 2016, entregue aos poderes executivo e legislativo, sobre temas polêmicos, sobre ‘data de comemoração do aniversário de Dourados’, o dia ‘vinte de dezembro’. Os estudos mostram desde quando foi instituído o feriado, celebrado e comemorado com parabéns para você no século XX e quando deixou de ser feriado no século XXI. Os resultados da pesquisa estão brevemente em forma de artigo textual e visual, com as fontes devidamente citadas, divididas em tópicos para facilitar a compreensão dos temas sobre a fundação de Dourados, com recorte temporal do período de 1914 a 1943. O primeiro tópico é sobre a criação do Distrito de Dourados; no segundo tópico, sobre a emancipação política e a criação do município; o terceiro tópico elucida as implantações das Colônias Agrícolas; o quarto tópico pondera os deslizes históricos nas fontes oficiais e, por fim, o quinto tópico aborda o poder simbólico da data cívica do dia 20 de dezembro, aniversário de Dourados.

Dourados é o segundo município mais populoso do estado de Mato Grosso do Sul, mas em termos de produção e valorização de sua ‘história’ pode ser considerada uma cidade que ainda pouco tem feito em comparação a outros municípios de MS.

Compete a cada comunidade preservar e decidir sobre o reaproveitamento dos testemunhos de sua história, garantindo assim sua própria humanização e qualidade de vida. A consciência histórica, portanto, nos leva para a maturidade, a ter, simultaneamente, um sentido de nossa própria “significância” e “insignificância”.


Blog do Alex Fraga - Como foi o processo, construção e ideia de lançar "História de Dourados - A Gênese de sua fundação (1914-1943)


Carlos Amarilha - A história da fundação do município de Dourados é uma das mais extraordinárias do Brasil contemporâneo. Logo após a Guerra do Paraguai há lutas internas, externas, peleja pelo poder político, batalha de determinado partido político, lutas realizadas pelas armas, embates fratricidas, conhecidas por ‘revoluções’, luta contra o poder econômico do monopólio da erva mate da ‘Companhia Matte Laranjeira’. A sede, a vila, o povoado, foi denominado de ‘Patrimônio dos Dourados’, depois, ‘Patrimônio de Dourados ’, lugar de uma paragem, dos viajantes, dos carreteiros, das comitivas, um ponto de descanso, igualmente nesse lugar era um ponto de encontro, de um evento cívico, de um baile, de aquisições de remédios, da cachaça, do querosene, das compras em geral. Transformou-se em Distrito em 15 de junho de 1914; em 20 de dezembro de 1935 em município e no ano de 1943 em Colônia Agrícola Nacional de Dourados (CAND).

Uma cidade oriunda da floresta cresceu e se desenvolveu por meio da extração da erva mate, do comércio de abastecimento aos profissionais dos ervais, da criação de gado, das colônias agrícolas e na contemporaneidade de polo universitário e do agronegócio.


Blog do Alex Fraga - Qual a origem do nome do livro?


Carlos Amarilha - O nome do livro, História de Dourados: a gênese de sua fundação, com recorte temporal de 1914 a 1943, tem como destaque a ‘gênese’, ou seja, o começo, o inicio de tudo, por isso, a ‘gênese’, ou melhor, um conjunto de fatos ou elementos que contribuíram para constituir um povoado no meio da floresta. Nesse sentido, o livro tem a finalidade de possibilitar conhecer e reconhecer a história da fundação do município de Dourados. O que Dourados foi? E poder fazer reflexões do que Dourados é? O que Dourados se tornará? Quem são os douradenses? O que pertence e o que não pertence ao município de Dourados? O que significa “ser douradense”? E ser douradense é bom ou ruim? Motivo de orgulho ou de vergonha? Deve-se ostentar ou camuflar? Questões que merecem um profundo conhecimento e reconhecimento por parte de toda a sociedade douradense.


Blog do Alex Fraga - Quais as referências ao escrevê-lo?


Carlos Amarilha - São mais de 70 fontes citadas no decorrer dos textos e 180 imagens e figuras. As principais mencionadas são: Capilé e outros (1995), Pinto Sobrinho (2009), Serejo, (1986), Pompeu (2014), Souza (2003), Moreira (1990), Maria Goretti Dal Bosco (1995), Cremonese-Adamo (2010), Ernandes (2009), Carmello (1973), Capilé (2004), Gressler e Swensson (1998), Amarilha (2016), Amarilha (2012), Betoni (2002), Carli (2008), Loro & Ferreira (1985), Reis (2006), Freire (1999); GUIMARÃES, Acyr Vaz (1992), CORRÊA

FILHO, Virgilio (1969), CORRÊA, Valmir Batista (1995), ARRUDA, Gilmar (1986), AQUINO, Rubens. (1986), SEREJO. Hélio (1981), entre outros. Documentos oficiais: leis, decretos, resoluções, Fundação IBGE (1958), Indicador das leis e Decretos do Estado de Matto-Grosso (1890-1935), Jornal O Progresso de Ponta Porã (1920-1927), Jornal O Douradense (1948-1949), Jornal O Progresso de Dourados (1951-2015).

Existem inúmeras publicações realizadas pelos memorialistas, intelectuais, jornalistas, artistas, músicos, acadêmicos, trabalhos universitários e historiadores sobre coisas que aconteceram em Dourados e região. Com a democratização das informações, o espaço das redes de comunicação virtual como o Facebook, WhatsApp, Instagram, a criação e divulgação de blogs, sites, jornais virtuais, entre outras redes e aplicativos da cultura digital, aumentou-se cotidianamente o debate acerca da História de Dourados.

A contextualização histórica de Dourados exige o máximo de atenção por parte dos pesquisadores para poder evitar deslizes históricos e geográficos, nesse sentido, os documentos “oficiais” e “oficiosos” são as fontes mais seguras para poder explicar a História oficial da gênese da fundação de Dourados coerentemente. Evidentemente que todas as fontes são imprescindíveis, como os memoriais, manuscritos, artigos, crônicas, jornais, revistas, livros de história e de literatura, monografias, dissertações, teses, dos quais ajudam a compreender e contextualizar o momento histórico específico de cada época. Mas neste caso específico, as leis e decretos são fundamentais para evitar equívocos históricos e geográficos relacionados com o atual município de Dourados, principalmente os topônimos que levam o mesmo nome ‘Dourados’ e outros nomes dados como sendo do município atual, mas que não são ou nunca existiram.


Blog do Alex Fraga - Quais foram as dificuldades?


Carlos Amarilha - Por não dispor de um Arquivo Público Municipal em Dourados, com documentos salvaguardados, arquivados, para pesquisar sobre a história da fundação de Dourados, aumentam-se as dificuldades do historiador, em poder analisar temas sobre a instituição do município.

Para responder a pergunta referente ao nascimento de Dourados, os documentos se encontram em Ponta Porã, ou seja, o pesquisador tem que se deslocar a outro município para pesquisar documentos referentes ao passado de Dourados, deste modo, um dos principais empecilhos ao historiador em beber de fontes primárias sobre temas de sua fundação é a inexistência de um Arquivo Público Municipal.

Por exemplo, ninguém nasce com um ano de idade, pois é necessário completar doze meses para poder comemorar um ano. Quando Dourados foi lavrado em Ata, no ano de 1915, como sede do Distrito de Ponta Porã, foi devido à Lei Estadual n.° 658 de 15 de junho de 1914, mas para se concretizar em forma de lei tem todo um aparato, um processo, de estudos, pesquisas, medições de áreas territoriais, reuniões, reivindicações de moradores, que foram feitas em tempos anteriores, ou melhor, cada projeto para ser votado, leva um tempo para se concretizar, até se colocar em prática. Ou seja, quando Dourados lavrou a primeira Ata de fundação do Distrito, já existia um

povoado consolidado há muito tempo, com casas comerciais, farmácias, salão de baile, pensão, campo de futebol, torneios, cavalhadas, corridas de cavalos, eventos religiosos e culturais.

As fontes oficiais que temos sobre a fundação de Dourados são originárias de Ponta Porã, as atas, jornais, leis, documentos entre outros. A partir da instalação do Distrito em 24 de fevereiro de 1915 e do município, em 22 de janeiro de 1936, infelizmente muitos documentos não foram preservados para registrar os feitos históricos, dificultando o descongelamento de acontecimentos ocorridos em Dourados no período que antecede os anos de 1914. A necessidade de um Arquivo Público Municipal, para que os acontecimentos possam ser guardados e preservados.


Blog do Alex Fraga - Por que resgatar esse período em livro ?


Carlos Amarilha - Uma história diferente de muitos municípios de Mato Grosso do Sul, pois para se constituir em um povoado de fato, ou seja, lugar de compras, prestações de serviços e de comércio, foi necessário se constituir por meio de lei. Primeiramente sendo sede do Distrito de Ponta Porã, em 1914; a Lei n.° 666 de 04 de junho de 1914, com a criação de uma escola mista no Patrimônio de Dourados. Em 1915, uma lei específica estadual garantiu uma reserva de terras para efetivar um povoado de 3.600 hectares

A história da fundação do município de Dourados-MS não é uma pergunta simples de responder, pois apenas os documentos oficiais, não traduzem todas as realidades de sua criação. Há inúmeras possibilidades de respostas sobre os vários eventos ocorridos no passado, diversas fontes são imprescindíveis para o entendimento do contexto histórico. As fontes analisadas não são apenas o documento pelo documento, mas contextualizadas, mensuradas, compreendidas com localização geográfica, cada período, tempos históricos diferenciados de cada evento, com dados que indicam que a construção do município de Dourados teve ao longo de sua fundação muitas pessoas que foram fundamentais para sua criação e efetivação.

O município de Dourados passa por muitas modificações e precisa de uma história com apoio de dados confiáveis, oficiais, baseados em fundamentos metodológicos e teóricos, de informar aos leitores de como se deu o processo de povoamento e formação de um povoado, depois vila, distrito, município e colônias agrícolas com o nome de ‘Dourados’.

Este livro não tem a pretensão de trazer à tona toda a História da fundação de Dourados, mas apenas tópicos, que possam contribuir para o debate acerca do que pertence e o que não pertence ao município de Dourados, além de incentivar novas pesquisas.

Neste livro procuramos responder as perguntas sobre a fundação de Dourados. Como nasceu Dourados? Como se deu a fundação ou a existência de Dourados? Quem assinou a lei? Quem assinou a ata de fundação? Quem participou da luta para

Dourados se tornar um município? Como Dourados se transformou em Colônias Agrícolas? Quando? Onde? Por quê?

É chegada a hora de valorizarmos a história de Dourados, com a grandeza que esta cidade merece. O município de Dourados sempre recebeu o imigrante, o colono, o visitante e atualmente o estudante universitário, para morar nesta região, construir novos sonhos, novas moradas, novos ares. Os douradenses são cosmopolitas por serem oriundos de vários Estados, países, que fazem uma mistura cultural interessante e diversificada.

Por que aprender história? A resposta para essa pergunta está muito perto de você: na rua que você anda todos os dias, da língua que aprendeu a falar desde muito pequeno, nos costumes alimentares, nas brincadeiras de crianças, dos passeios nos parques, no momento em que frequentou uma sala de aula, tudo que está ao seu redor, de bom e de ruim, tem história.

Esperamos que a história da fundação de Dourados possa ser reconhecida pelo valor que este município merece, divulgada para a juventude ter orgulho de pertencer a um município constituído de pessoas de cultura plural.


Blog do Alex Fraga - Você acredita que ainda o incentivo à leitura é pouco e apesar da grande produção dos escritores e poetas?


Carlos Amarilha - Como incentivar a leitura em um país, cuja maioria de sua população não tem o hábito da leitura. Diz um ditado popular: “Quem não lê. Mal fala. Mal ouve. Mal vê”. Temos uma dívida com o povo brasileiro, de fazer as nossas crianças e os nossos adolescentes terem o gosto pela leitura.

Muito se fala do poder da leitura, um percurso que idealmente começa na infância - mas também pode ser iniciado mais tarde (nunca é tarde para abrir o primeiro livro). Não se preparar para o hábito da leitura é ficar na mesmice e no patamar de país subdesenvolvido. Mais do nunca precisamos incentivar e oportunizar leituras extraclasses.

É preciso fomentar, formar e cultivar leitores. No entanto, bem mais do que estimular esse papel instrumental da leitura, o grande desafio sempre presente é fazer com que ler ajude a dar significados diversos para aqueles que se vão apropriando das letras. Significados de aprendizagem, sem dúvida. Mas também significados de construção de identidade pessoal e coletiva, de humanização por meio da experiência, de maravilhamento poético, de percepção ética, enfim, de aproximação do legado da cultura por meio de seus mais diversos matizes. Aproximar as crianças, os adolescentes e os adultos, dessas variadas dimensões da literatura que prescinda de qualificativo.

Estimular a leitura não pode mais reduzir-se à remota e incerta revitalização dos "centros de formação" de novos leitores (as escolas). O incremento de práticas estimuladoras passa pela sociedade, é papel de jornalistas, políticos, editoras, juristas, pais e professores, e muito mais gente. A responsabilidade deve ser compartilhada, não apenas transferida ao Estado. E estímulo não é imposição.

Por isso, acredito na educação, mesmo com as adversidades sociais, a escola pode ser o berço da leitura do povo brasileiro. O professor tem um papel especial em formar novos leitores no cotidiano escolar, igualmente despertar nas crianças a curiosidade de ouvir, de se concentrar, de se encantar com o mundo mágico das palavras, pois as ações pedagógicas exercitam a reflexão e a memorização, ao mesmo tempo em que estimula: a oralidade, a criatividade, a reflexão, a iniciação de leituras e gostos literários infinitos.

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