Crônica/Poesia - Bicho-da-seda, por Raquel Naveira
- Alex Fraga
- 11 de abr. de 2024
- 2 min de leitura

Quinta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de crônica/poesia com a escritora e poeta de Campo Grande MS, Raquel Naveira, com Bicho-da-seda
BICHO-DA-SEDA
Raquel Naveira
“Quando o tecelão prepara as suas cores e o seu linho, tranca-se em casa.”
(Árabe desconhecido)
Dentre os símbolos utilizados para personificar o ofício poético, a arte de escrever, o que mais me identifico é o da fiandeira, a tecelã que trama os seus textos. Dessa ideia surgem outras: as figuras mitológicas das Parcas ou Moiras, que dominam os fios do Destino, o poder incontrolável que regula a sorte dos homens do nascimento até a morte; a aranha que tira de dentro a forma das geométricas teias e o bicho-da-seda, que se tranca em sua casa/casulo, preparando estranhas metamorfoses.
O bicho-da-seda é um inseto de corpo amarelado, antenas pretas e asas esbranquiçadas. Seu único alimento é a folha da amoreira. A larva, apenas nascida, é escura e peluda. A lagarta passa por cinco mudas até tecer o casulo e se transformar em crisálida. Para a produção da seda é necessário total recolhimento. A seda é elaborada por um aparelho secretor especial, a fieira, que se localiza junto à boca.
A origem do bicho-da-seda se perde na lenda. Confúcio 551 a. C.- 479 a. C.), filósofo do Período das Primaveras e Outonos, em um de seus livros, conta que a imperatriz chinesa foi a primeira a ensinar a cultura do bicho-da-seda e trabalhar o casulo, há mais de dois mil e quinhentos anos.
Os gregos e os romanos dos primeiros séculos da Era Cristã apreciavam a seda, rica mercadoria chinesa.
O bicho-da-seda foi introduzido no Ocidente por dois monges da Ordem São Basílio, missionários na Índia e na China, que de lá trouxeram os primeiros exemplares e com eles presentearam o Imperador Justiniano. Mais tarde, a cultura espalhou-se pela Grécia, Bizâncio e Itália.
O poeta é bicho-da-seda, a larva que solta secreção que vira tecido, fibra pura, trama amolecida, lustrosa e sofisticada. Aquele que forja seu próprio destino.
O poeta se protege em seu casulo/casa, a cabeça e os olhos baixos, concentrado em seu trabalho, nos riscos de seu bordado, alheio aos ruídos e apelos do meio exterior.
A seda preparada pelo bicho-poeta é tensa, corda esticada no pensamento. No entanto, o material que se forma é elástico, plástico, absorve cores lindas e vibrantes. Veste com a suntuosidade e a elegância das pétalas do lírio.
Morta por dentro, a alma do poeta poderá se libertar, vagar entre as árvores. Sobre essa derradeira mudança, escrevi:
Na primavera,
Alimentei-me de folhas,
Cresci,
Tornei-me um verme,
Fiei seda,
Teci um casulo,
Vida escondida e quieta.
Um dia,
Seco por dentro,
Vou me transformar numa borboleta,
Alma morta para o mundo,
Onde tudo descontenta,
Não saberei onde pousar,
Vagarei entre amoreiras brancas.
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Que texto extraordinário!!! Parabéns, talentosíssima Raquel!!!
Encantador
❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️
Amo todos os seus textos, Raquel! Você é FEEEEEERA!!!
Maestrina das letras.
Vânia Maria
Natal RN