Crônica - A Cura da Loucura, por João Francisco Santos da Silva
- Alex Fraga
- 4 de jan.
- 2 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de crônica com o médico clínico geral, acupunturista e escritor de Campo Grande (MS), João Francisco Santos da Silva, com "A Cura da Loucura".
A CURA DA LOUCURA
A convivência tornou-se insustentável entre os dois homens. Cidade pequena demais para o renomado psiquiatra com seu paciente louco e de bom nível social. Louco recente, de loucura pacata, não violenta, mas, constrangedora. Embora frequentador habitual do consultório psiquiátrico, por lástima ou rebeldia, ele se mantinha refratário ao tratamento médico. O homem insistia em perambular pelas ruas falando sozinho. Situação embaraçosa, sua presença despertava curiosidade, risos contidos e comentários em voz baixa.
Constrangimento parecido também experimentava o psiquiatra. Profissional antes respeitado, agora todos lhe olhavam de maneira diferente e falavam dele pelas costas.
— Para que serve um psiquiatra que não consegue manter um louco fora das ruas? E a consulta não é barata! É melhor viajar 120 km e consultar com o psiquiatra da cidade vizinha!
Dia após dia, quanto mais o louco falava sozinho, mais esvaziava-se o consultório do psiquiatra. E em vão, o médico tentava transferir o problema para o colega da cidade vizinha. Até que finalmente, a família, mesmo relutante, aceitou o encaminhamento para outro profissional médico.
Passado algum tempo, o psiquiatra avistou seu ex-paciente na rua. O homem conversava ao celular aparentando um comportamento normal. Na cidade pequena, logo se espalhou a notícia que o psiquiatra da cidade vizinha descobrira a cura para a loucura. Depois desse caso bem-sucedido, todos os desequilibrados mentais só queriam tratar com o psiquiatra da outra cidade, aquele que curava loucos.
O consultório do psiquiatra, o que não curava loucos, ficou as moscas. Desiludido, o médico fechou as portas e mudou-se de cidade. Contudo, antes de partir ligou para o psiquiatra da cidade vizinha, estava curioso para saber como o colega conseguira tratar caso tão difícil como o de seu ex-paciente.
— Não, eu nunca curei nenhum louco! Eu apenas lhes reintegro a sociedade. Respondeu o colega bem-sucedido.
— Pode me explicar melhor como fez isso?
— Para o nosso cliente em comum, eu lhe dei um celular de presente. Modelo caro, desses que chama a atenção. Lhe recomendei deixa-lo desligado e sempre que fosse falar sozinho, o colocasse encostado no ouvido.
— Só isso?
— Na verdade, depois de uns dias precisei fazer um pequeno ajuste terapêutico. O paciente reclamou sentir dor no ombro e no pulso de tanto segurar o celular. Então lhe passei um par de fones de ouvido “bluetooth”, supermodernos e com a condição dele sempre levar o celular no bolso da frente da camisa.
— Ah! E agora o pulo do gato. O porque de meu tratamento dar certo. Simplesmente porque a sociedade também anda meio maluca. As pessoas não veem problema em ficar falando sozinho na rua, desde que se tenha um celular por perto. Analisando filosoficamente a questão, quase não existem loucos! O que existem são pessoas desajustadas. Sendo assim, eu reinseri nosso cliente num padrão comportamental socialmente aceitável.
Depois dessa conversa, o psiquiatra, o que não curava loucos, constatou que estava no ofício errado. Mas, como já se sentia meio velho para mudar de atividade profissional, resolveu se aprimorar um pouco mais na sua profissão mesmo. Se matriculou em um curso de filosofia a distância.
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