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Crônica - Violeta Parra: artista imensa, por Raquel Naveira

Quinta-feira, no Blog do Alex Fraga é dia da crônica da escritora e poeta sul-mato-grossense Raquel Naveira, com seu Violeta Parra: Artista Imensa.

VIOLETA PARRA: ARTISTA IMENSA

Raquel Naveira

A violeta é uma flor modesta, humilde, mas de aroma poderoso e doce. As flores roxas, com pétalas de veludo macerado, guardam o mistério da magia e da espiritualidade. Foi na estreita faixa costeira encravada entre a cordilheira dos Andes e o Oceano Pacífico, no meio da neve, que floresceu, anunciando o verão, Violeta Parra (1917-1967). Nasceu do ventre de sua mãe camponesa, do musgo das pedras, do útero da Pátria chilena. Artista imensa, Violeta cantou, pintou e bordou. Compôs ao som de charangas e guitarras versos como estes: “Voltar aos dezessete/ Depois de viver um século/ É como decifrar signos/ sem ser sábio competente”. Pintou quadros e painéis com cenas do duro cotidiano de sua gente ameríndia. Fez esculturas de arame em forma de anjos e feras. Modelou cerâmicas de vasilhames bojudos. Bordou inúmeras arpilleras, técnica têxtil antiga e popular criada por bordadeiras da Isla Negra. Sobre os sacos de batatas e farinha, com fios e retalhos, iam surgindo personagens, paisagens, lutas de resistência, construções do passado e da memória de seu povo. A vida de Violeta foi sofrida, pobre, de poucos recursos econômicos. Formou com sua irmã uma dupla “Las Hermanas Parra” e cantavam na noite, em bares e circos. Jovem, conheceu o ferroviário Luís Cereceda com quem se casou e teve dois filhos: Isabel e Angel, que se tornaram compositores e intérpretes como ela. Separada, voltou a se casar com Luís Arce com quem teve mais duas filhas: Luísa Carmen e Rosa Clara, que morreu em tenra idade. Em meio aos percalços sentimentais e às agruras da sobrevivência, Violeta catalogou cerca de três mil canções folclóricas. Parecia ouvir as vozes da esmagada civilização inca, dos índios mapuches, dos dominadores espanhóis com suas harpas e castanholas. As canções traziam mundos de sangue, pedaços de caravelas, de ossos em urnas, de restos carregados pelos terremotos. Era o torrão natal que cantava através de Violeta, ela toda um instrumento, uma potência, um símbolo da América. Na Feira de Artes Plásticas de Santiago, conheceu o musicólogo e antropólogo suíço, Gilbert Favré, bem mais jovem do que ela. Foi paixão desenfreada, de novo e aventura. Logo aquele que depois ela chamaria de “Coração Maldito”. Com Favré viajou para a Argentina. Em 62, reuniu-se em Buenos Aires com seus filhos e excursionaram juntos pela Europa e União Soviética. Os “Parra do Chile” deram concertos na rádio e na TV, entre França e Suíça. Em 64, expôs no Museu do Louvre suas pinturas, arpilleras, óleos e esculturas. Consagração inédita para uma artista latina. Durante a tumultuada relação com Favré, dilacerada com mais uma separação, escreveu a canção “Run Run se foi para o Norte”: “Corra, corra, foi para o Norte/ Não sei quando virá,/ virá para o aniversário da nossa solidão.// Foi para o Norte/ Fiquei no sul/ No meio há um abismo.” Estava triste e vulnerável, ela que escrevera um hino de pura energia, a canção “Gracias a la Vida”. “Graças à vida/ que me deu dois olhos/que, quando os abro, distingo o negro do branco/ e o céu estrelado.” Violeta, presa ainda num caule de esperança, resolve voltar à sua terra, à sua família, à comuna de La Reina, na rua Segóvia. Imagina então armar uma tenda, uma casa de paus, à beira da cordilheira, observando o voo das gaivotas. Uma casa que seria uma escola, um Museu de Arte e Folclore, um espaço cultural para todas as artes. Um intento formidável. Turistas e poetas do mundo todo viriam visitar esse lugar mítico, assistir às penhas, aos espetáculos mais coloridos, retumbantes, regados a vinho chileno, assados, trutas e empanadas. Seria um palco de fogo com artistas investigando as origens musicais mais telúricas. Tudo isso Violeta imaginou, mas vieram ventos gelados. Turbilhões levaram as lonas. Águas rolaram num canal de areia marinha pelo meio da tenda. Despencou o sonho, enquanto albatrozes gigantes passavam rasantes pelas encostas das montanhas. Violeta, os olhos saltando das órbitas num roxo mortiço, pediu para ficar só. Ouviram-se os estampidos. O sangue escorreu sobre sua carta secreta de suicida. Alguém gritou lá do fundo do vale: “_ Violeta não está ausente. Seu sonho agora é nosso ninho.”

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