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Crônica - Vaca atolada, calorias e uma boa companhia, por Tânia Souza



Terça-feira no Blog do Alex Fraga é dia de poesia com a poeta e escritora de Campo Grande (MS0, Tânia Souza, com Vaca Atolada, Calorias e uma Boa Companhia.


VACA ATOLADA, CALORIAS E UMA BOA COMPANHIA

· Esse texto foi escrito há muito tempo, quando ainda desfrutava da boa companhia de minha mãe. Mas resgato essas letras da memórias e sabores que me reconstroem. Bom apetite.


Amo sábados, ainda mais quando se trata do meu primeiro dia nas férias, perfeito para sair e aproveitar a noite. Quando atravesso a sala, minha mãe se enrola no cobertor e me dá um sorriso. É, é sábado, o primeiro dia do recesso de julho e minha decisão está tomada: vou cozinhar. Confiro com minha instrutora a lista de compras. Ingredientes: 1 kg de mandioca; (descascada, congelada e picada; viva a tecnologia);

1 kg e meio de costela de boi, cortada em pedaços pequenos;

4 tomates;

3 cebolas;

Cheiro verde à vontade;

Alho e pimenta a gosto;

Vinagre, shoyo (este é por minha conta e risco);

1 colher de óleo;

Tudo pronto, mesa posta, cebolas, cheiro verde fresquinho, costelas cortadas em pedaços pequenos, mandioca picada preparada. O prato? Vaca atolada! Primeiro picar a cebola com carinho, um fósforo no canto da boca evitaria lágrimas? Comigo não funciona, cortar cebolas alivia as dores que nem lembro, pois choro sempre. Depois, os demais temperos, cada qual separado num pratinho, a mesa vai ficando colorida, minha mãe me acompanha com os olhos, conversamos então tantas coisas que os dias não deixam espaço para falar, histórias do passado, sobre o frio lá fora, de quem este prato era o favorito? Épocas que jamais vivi vão sendo descortinadas do alto dos setenta e sete anos de minha mãe, épocas de viver na roça, de plantar para colher, de produzir cada alimento que nutria a família. A mandioca vem congelada, picada do jeito certo,

para meu alivio, que frequento a cozinha raramente. Antigamente, ela diz, quando o tempo esfriava assim, a raiz estragava, as galinhas não botavam ovos, o inverno deixava tudo mais difícil, nada de queijo, o leite diminuía. São conhecimento que provavelmente não passarei para os filhos que não terei, afinal, leite hoje vem em latas ou caixas, que sabemos nós, na correria do dia a dia de uma capital, dos percalços que o inverno traz e dos conhecimentos que eram tão preciosos na época que minha mãe era ainda menina? Ainda assim, saboreio cada palavra, cada instante para mim revelado. Modo de preparo

Tempero a carne e separo. A panela escolhida é grande, a colher de pau evita acidentes, preferiria refogar sem óleo, preciso evitar as calorias, mas hoje faço uma exceção, este é um prato que nasceu para dar “sustança”, usados pelas comitivas pantaneiras e de outras partes do país, garantindo a força do peão. Assim, refogo na panela a carne e os primeiros temperos, o aroma se espalha na cozinha. Cozinhar assim é bom, apreciando os momentos, saboreando os aromas que vão se espalhando, e mais que tudo, como é bom sentar, poder falar e ouvir a minha mãe, necessário dizer que durante o ano, são poucas as refeições que fazemos juntas, preparar então, quase nunca. A costela está dourada, a cebola e o alho sumiram, acrescento então a mandioca aos pedaços e vou misturando. “A água precisa estar quente filha”, e está, na chaleira ao lado, ferve a água que acrescento aos poucos, misturando sempre. O alimento borbulha na panela e aquece a cozinha. Falamos ainda do passado, de quando eu era menina e sonhava com sonhos que já nem lembro, voltamos ao presente e aos planos que ainda não concretizamos, “me conte mãe, daquela vez que”... São historias que conheço de cor, mas ouvi-las na voz da minha mãe é sempre bom. Não esqueça o tomate, água para cobrir todos os ingredientes. Ferve a fumegante refeição, a carne e a mandioca vão se mesclando e o caldo engrossa. Vaca atolada, que nome estranho, mas tão sabor da

minha infância, tão cheiro de Mato Grosso do Sul. Minha mãe diz ainda que o caldo deve se transformar em um creme grosso, por isso as costelas ficarão atoladas. A melhor coisa de cozinhar é aproveitar cada instante, preparar, cortar, temperar, provar, acrescentar, inventar... A melhor coisa de passar meu primeiro sábado de férias na cozinha com minha mãe é saber que a tenho comigo, trocar olhares, conversas e sorrisos.

Desligo finalmente o fogão, polvilhando com cheiro verde para completar o apetitoso quadro. Mesa posta, um prato de torradas a um canto, tanta comida na panela, vou ligar depois para meus irmãos passarem aqui, mas este momento é nosso, jantar com minha mãe é jantar especial, inspiro profundamente o aroma de ensopado, enquanto arrumo as cadeiras na pequena mesa da cozinha, a mesa para todos nós é outra. Adoro o cheiro de ensopado quente! Não me lembro da primeira vez que senti o cheiro do cozido fumegando na cozinha, mas tenho guardada nas lembranças a imagem da mesa arrumada e de uma toalha xadrez. Ainda éramos dez batendo as colheres sobre a mesa até que ela, suavemente, nos repreendesse para que tivéssemos “modos”; e finalmente, a panela era trazida a mesa, meu pai a cabeceira, minha mãe, agora sei, mal tinha tempo para sentar-se. Enfim saboreávamos uma iguaria única, a comida feita com amor - simples e para todos - com o tempero da mãe. O tempo foi passando e hoje, pleno sábado, quando olho novamente para ela, somos apenas nós duas, a panela sobre a mesa é enorme, tem comida demais, mas o sentimento de carinho é igual, como é bom ter minha mãe comigo. Um belo sábado para começar as férias de julho. Amo sábados, mas amo muito mais a minha mãe

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1 Comment

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Guest
Nov 28, 2023
Rated 5 out of 5 stars.

Amor de mãe é incalculável,

Remete ao passado, tem cheiro, aroma, perfumes, lembranças da infância.

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