• Alex Fraga

Crônica - "Rios", por Raquel Naveira

Atualizado: 23 de mar.

Quinta-feira, dia de crônica no Blog do Alex Fraga, o belo texto da poeta e escritora sul-mato-grossense Raquel Naveira, com "Rios".


RIOS

Raquel Naveira


Gosto de observar os rios. O fluir das águas, a corrente da vida e da morte em direção ao oceano, a travessia de uma margem à outra. Os rios simbolizam sempre a existência humana com sua sucessão de desejos, sentimentos, intenções e variedade de desvios.

Heráclito meditou: “Aqueles que entram nos mesmos rios recebem a corrente de muitas e muitas águas e as almas exalam-se das substâncias úmidas”. Platão sintetizou: “Não conseguiríamos entrar duas vezes no mesmo rio.” A palavra “rios” no plural significa que existe um rio para cada homem que mergulhar em suas águas.

Fernando Pessoa escreveu os seguintes versos: O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia./Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia/Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

Minha terra, o Mato Grosso do Sul, é cheia de rios. Para cada uma de suas cidades existe em rio ou mais de um rio. Campo Grande foi fundada na confluência de dois córregos, mais tarde denominados “Prosa” e “Segredo”. O pioneiro José Antônio Pereira, com cinquenta anos de idade, natural de Minas Gerais, empreendeu sua primeira viagem rumo ao sul da então Província de Mato Grosso, à procura de campos para criar animais e matas para lavouras. Formou uma comitiva composta por cinco pessoas, dentre estas, seu filho Antônio Luiz , dois escravos (os irmãos João e Manoel) e Luiz Pinto, prático em viagens pelo sertão. Em 04 de março de 1872, a pequena caravana partiu de Minas em direção àquelas vastas campinas, trilhando os caminhos deixados pelos soldados que combateram os invasores do território brasileiro na Guerra do Paraguai. As águas daqueles rios foi o panorama ideal para a comitiva descansar e depois construir um rancho coberto de folhas de buriti. Hoje, o Prosa e o Segredo estão escondidos sob o asfalto, mas serviram de demarcação e início da futura capital.


*


O rio Paraguai, caudaloso como um mar, é responsável pela existência de duas cidades históricas: Corumbá e Porto Murtinho. Como é belo ver o rio Paraguai: a massa, a corrente, o volume veloz das águas sob o casco que singra aquele oceano doce, barrento, coalhado de camalotes. Verdes ilhas que a balsa tritura com se tivesse dentes. Do outro lado, está Corumbá, branca, caiada. Podemos ver o rio Paraguai da ribanceira de Porto Murtinho, enquanto esperamos uma chalana, um barquinho que nos leve à outra margem.

Também em Assunção, da sacada do castelo de Solano Lopes, vê-se o rio Paraguai. Seu sonho de ditador dissolvido em ondas de lama. Enfim, quando vemos o rio Paraguai entrecortando o Pantanal, formando canais pela Bacia do Prata, nossa alma se enche de melancolia, de canções, de histórias. Temos uma sensação estranha de sempre e de nunca mais.


*


Afluente do Paraguai, o Apa é o mais significativo referencial da cidade de Bela Vista, cenário da Retirada da Laguna, vizinha da cidade de Bela Vista do Paraguai. Às suas margens passei momentos inesquecíveis de minha infância e adolescência, viajando em pequenos barcos por suas águas ora verdes, ora pesadas de terra.

E o que seria de Aquidauana sem o rio Aquidauana que hoje a separa do município de Anastácio? E Miranda, Nioaque e Rio Brilhante sem os rios do mesmo nome? A quem Dourados, a capital dos grãos, deve seu nome, senão ao rio Dourados, coalhado de peixes? Dá para imaginar Coxim sem o espumante Taquari? E Bonito sem as cachoeiras do Mimoso e do Formoso? E há o rio Perdido lá pelos lados de Caracol. O Mangaba e o Itá, a caminho da cidade de Antônio João. O rio irriga com ramificações finas e capilares toda a costa leste do Estado. Para mim, um dos sinônimos de felicidade é poder mergulhar num rio da minha terra, tomar banho de cachoeira, penetrar na massa das águas como quem retorna à Nascente divina.


No livro O Tempo além do Tempo, antologia de poemas de Ivan Junqueira, encontro o poema “O Rio”. O poeta define o rio como uma “língua bífida que lambe até o lodo e o limo das frinchas onde se enfia na terra.” Confessa que na infância não viu o rio, “mas só praias e penínsulas cheias de sol e maresia”, que aos quinze anos conheceu o “sensual Paraíba, com águas cor de ouro antigo.” Depois, adulto, mostra o desfile de rios de sua vida: os que cruzou, os que fluem pelo mundo. Lembra então o Eufrates, o Tigre, o “esfíngico” Nilo, o “Mississipi castanho e altivo” de T. S. Eliot; o “Tâmisa poluído”; o Sena esguio; o Arno, “grave e humilde”, onde Dante viu Beatriz; o russo Vístula em São Petersburgo; o austríaco Salzsach, “cujo azul lembra o da mais difusa opalina”; o Tejo das tágides de Camões; o rio primevo de onde “ninguém sai igual a si”. Ivan Junqueira louva os rios, onde tudo é vida e movimento.


*


Ah! Caro poeta, também louvo os rios de minha terra como se fossem vasos e artérias do meu próprio corpo

201 visualizações4 comentários

Posts recentes

Ver tudo