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Crônica/Poesia - O mito da caverna, por Raquel Naveira



Quinta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de crônica/poesia com a escritora e poeta de Campo Grande (MS), Raquel Naveira, com "O mito da caverna".


O MITO DA CAVERNA

Raquel Naveira


Caverna, gruta, antro subterrâneo, escuro, afundado na terra ou na montanha, de teto em forma de abóbada. A caverna representa o mundo, lugar de ignorância, sofrimento e purificação, de almas acorrentadas e mantidas em prisão por suas paixões. A caverna é um grande receptáculo de energia telúrica, de forças que emanam das estrelas de baixo e que queimam o coração do homem.

Para Platão, o ser eterno e universal habita o mundo da luz racional, da essência e da realidade pura. E os seres individuais e mutáveis moram no mundo das sombras e sensações, das aparências. Platão criou uma alegoria, conhecida como mito da caverna, que explica o processo do conhecimento.

Segundo ele, a maioria dos seres humanos se encontra como prisioneira de uma caverna, permanecendo de costas para a abertura luminosa e de frente para a parede escura do fundo. Devido a uma luz que entra na caverna, o prisioneiro contempla, na parede do fundo, as projeções dos seres que compõem a realidade: sombras, fantoches, aparências agitadas. Acostumada a ver somente essas projeções, assume a ilusão do que vê, as sombras do real, como se fossem a realidade.

Se escapasse da caverna e alcançasse o mundo luminoso da realidade, ficaria livre da ilusão. Mas, estando acostumado às sombras, teria de habituar, aos poucos, os olhos à visão do real: olhar as estrelas, as águas, as flores, até que pudesse encarar diretamente o sol e enxergar a fonte de toda claridade. Essa fonte luminosa é o mundo das ideias, o mundo em que moram os seres totais e perfeitos: a justiça, a bondade, a coragem, a sabedoria.

O profeta Isaías declarou que, um dia, Deus será exaltado e a soberba e o orgulho serão humilhados. Nesse dia, “os homens se meterão nas concavidades das rochas e nas cavernas da terra”, por causa da Sua presença espantosa e da glória de sua majestade.

O cinema é a própria caverna de Platão. Entramos na sala de espetáculo escura, a tela branca à nossa frente, o projetor/lente/fogueira às nossas costas, as imagens projetadas como se fossem a realidade, uma realidade que nos engole por todos os sentidos. Mera ilusão de ótica. Lá fora, o mundo, as ruas, os faróis dos carros. Novas ilusões em cinemascópio.

É preciso entrar muitas vezes na caverna, explorar as minas do nosso eu interior, recalcado nas profundezas do inconsciente e do universo onírico.

Pensando em perigosas entidades psíquicas das cavernas, escrevi:


Entrei na caverna,

Levava apenas uma lanterna

E uma canção fraterna

Nos lábios.


Quanta ignorância.

Quanto sofrimento.

Almas acorrentadas,

Presas às paixões,

Clamando pela água de uma cisterna.


Pelas paredes:

Sombras,

Labaredas,

Pernas,

Pois há fogo no alto

E longe.


Ando por corredores,

Desço galerias,

Esmago estranhas abóboras;

Há fumaça,

Energia

E uma luz vermelha

Que poderia ser a aurora.


Quem estará no fim desse túnel?

Um anão fumando cachimbo?

Um chacal velando o sono do faraó?

Um minerador cavando chumbo?


Aproximo-me do fim do túnel,

Trago mel

Para enganar serpentes,

Tanto perigo,

Tanto lamento

E esta sensação de sepultamento.


Estava decepcionada,

Mergulhada em amargura,

Entrei na caverna.


Como farei agora

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E caminhar como uma gazela

Nas alturas?

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3 Comments

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Guest
May 25
Rated 5 out of 5 stars.

Parabéns, Raquel! Amei!!! Amo ler tudo que você escreve! Nota MIL!

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Guest
May 24

Belíssimo texto!!!

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Guest
May 23
Rated 5 out of 5 stars.

👏👏👏👏👏👏👏💪🤜

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