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Crônica Poética - A pescaria e as palavras, com Paulo Portuga

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • 25 de fev.
  • 2 min de leitura

Quarta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de crônica poética, com o professor, poeta, músico e compositor de Dourados (MS), Paulo Portuga, com "A pescaria e as palavras"


A PESCARIA E AS PALAVRAS


Hoje, eu não venho só escrever uma história,

Venho partilhar uma experiência.

Porque há vivências que não cabem

Em manuais ou livros didáticos,

Só cabem na memória

E essa começou cedo...

Muito cedo...

Quando o dia ainda estava nascendo.

No silêncio das águas do rio.


Fui pescar com um amigo indígena.

Eu fui achando que era pescador.

Ele foi sabendo que eu era um aprendiz.

O rio estava calmo e ele apontou:

“Y.”

Água.

Mas não apenas água...

Água viva, água que escuta,

Água que conta histórias.


Enquanto caminhávamos pela areia

No barrando do rio,

Ele me ensinava palavras em guarani.

Não como um professor...

Mas como quem oferece algo precioso.

Pois sua língua é resistência de um povo.

“Pira.” - Peixe.

Eu repeti: “Pira.”

E naquele instante,

Eu não estava aprendendo apenas uma palavra.

Eu estava aprendendo um jeito de olhar o mundo.

Me explicou sobre os peixes sem escamas

Os peixes de couro, que são antigos,

Fortes, silenciosos e sobretudo deliciosos.

E ali o vocabulário virava conhecimento.


Depois de algum tempo -

Porque o rio ensina paciência - ele disse:

“Pytu’u.”

Descansar.

Mas não era só o corpo, mas a mente.

Descansar a pressa.

Descansar o barulho de dentro.

E eu que estava inquieto,

Olhando a linha, mudando a posição da vara.

Achando que minha ansiedade

Fisgaria o peixe mais rápido.

Meu amigo... tranquilo.

Como se conversasse com o tempo.

Enquanto esperávamos, ele falava dos animais.

Não como quem descreve bichos...

Mas como quem fala de presenças no mundo.

Ele disse: “Jaguareté.” - Onça-pintada.

E o nome soava forte. Bonito. Antigo.

Como se carregasse mata, sombra e respeito.

Depois falou: “Mboi.” - Cobra.

E explicou sobre a jiboia…

A grande: “Mboi guassu.”

Ali eu percebia a língua viva.

A língua não apenas nomeia.

Ela revela relações entre os seres da natureza.


Mais tarde, já com o sol alto

E poucos peixes na minha conta, voltamos.

Havia um fogão a lenha aceso no rancho.

Ele me ensinou outra palavra: “Tata.”

Fogo.

Depois apontou para o fogão:

“Tata rupa.” - O lugar do fogo.

E lá estava o pato cozinhando lentamente.

Na panela. No tempo certo. Sem pressa.

Diferente de mim e da minha pescaria apressada.

Naquele dia eu aprendi algo simples e profundo:

Eu não fui ao rio pegar peixe.

Fui buscar experiência. E voltei com palavras.

Palavras que não são apenas som.

São território. São cultura.

São modo de ver o mundo.

E algumas histórias…

Não terminam em silêncio.

Essa virou música.

Porque havia ritmo no remo.

Havia melodia na água.

Havia poesia nas palavras.

Hoje eu partilho essa história

Com profundo respeito.

Porque sei:

Cada palavra guarda memória.

Cada língua guarda universo.

E cada encontro verdadeiro

Nos transforma um pouco.


Paulo Portuga, 23/02/2026.

 
 
 

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