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Crônica - Palavras de Mulher, por Lucilene Machado

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • 17 de set. de 2022
  • 2 min de leitura

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de crônica da professora de Literatura da UFMS, escritora e poeta Lucilene Machado, com "Palavras de Mulher".


Palavras de Mulher


Deixo os sapatos pela escada, tiro a roupa e estendo o corpo no sofá. Faço-me espiã dos próprios pensamentos. Ás vezes é difícil ser mulher, ter essa capacidade de fêmea que pressente o nascimento antes da concepção. A intuição de que vai se apaixonar, a certeza que sofrerá e ainda assim ama, cria afetos, cria laços indissolúveis, sentimentos distorcidos que sempre soube, mas os defendem com uma fúria indecifrável.

Não é fácil ser mulher vivendo o dilema de caminhar às margens das conveniências, ser guiada pelos imprevistos e quase enlouquecer sem saber ao certo o que sente e o que está condicionada a sentir. Nada é simples para uma mulher. Como explicar que me deixei molhar na chuva? E enquanto todo mundo corria, eu caminhava vagarosamente aproveitando a sensação de ser molhada pelo céu. Com o cabelo sobre os olhos cantei “you are so beautiful”. Cantei para mim. Sempre minto para mim. Desde pequena quando dizia que o único homem da mina vida haveria de ser meu pai. Mulheres gostam de se autoenganar, além de jurar. Juram pela mãe, pelos filhos e inclusive pela chuva que percorrem seus corpos e penetra na boca, orelhas e nariz num Singing in the rain sem beijos e sem guarda-chuva. Depois guarda a imagem para recordar, porque a vida para a mulher é sempre retardatária, nunca acontece ao vivo.

Cansa-me um pouco ser mulher. Ter de carregar esses sonhos, esses pedaços de histórias pregados no papel, esse romantismo de final de noite, essa loucura e paradoxalmente essa lucidez de viver cada coisa em seu limite. Cansa-me carregar na palma das mãos essas linhas indecifráveis, esses planos contraditórios, essas raízes misteriosas, esses ímpetos mudos. Cansa-me! Cansa-me, sobretudo, esses desejos que não cabem no quarto, essa origem latina que me queima por dentro, esse oceano interno, esses vegetais aquáticos, essas folhas crescendo incansavelmente em busca do sol.

Nem sempre é simples ser mulher. Toda estatística humana passa pelo nosso ventre. Todas as falhas, bem como todos os êxitos, têm o nosso toque. Há sempre um sopro de mulher em um coração que palpita. Soberana ou submissa é rainha, ainda que todos os dias lhe roubam a coroa. Até eu, com esses cabelos molhados e uma debilidade antiquada à minha idade. Eu que olho a vida de esguelha tentando encaixar as coisas onde não alcanço, tateando no escuro os momentos que passaram e que não quero esquecer. As mulheres reagem estranhamente segundo cada estação, cada chuva, cada curva... e se modificam a cada vento, cada corrente de ar, cada mudança de tempo e menstruam, engravidam e choram, sem ser necessariamente nesta ordem. Mulher chora sem motivos, porém nunca sem emoções. Chora olhando os cantos escuros da casa, os cantos escuros da alma. Talvez seja uma maneira de dizer coisas sem palavras, expulsar memórias, coisas mescladas, ressentidas, desordenadas... e antes que comece essa acidez na boca, relego a tristeza e canto novamente “you are so beautiful”.

Lucilene Machado

 
 
 

2 comentários

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Ruberval cunha
Ruberval cunha
18 de set. de 2022

Um canto autobiográfico com a universalidade feminina. Uma mulher que sabe domar as palavras e suscitar pensamentos sem perder a emotividade. Parabéns. Mais uma ótima crônica. Votos de um dia de paz. Abraços meus e da esposa.

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Ednilson de paulo
Ednilson de paulo
17 de set. de 2022

Num lance o laço! Gosto dessa objetividade dengosa, desse jeito doce de dizer coisas amargas! Estou por aqui, vez ou outra volto!

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