• Alex Fraga

Crônica - "Orelhas", por Raquel Naveira

Quinta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de crônica da escritora e poeta sul-mato-grossense Raquel Naveira, com seu texto intitulado "Orelhas".


ORELHAS

Raquel Naveira


Assisti a uma palestra do cirurgião plástico Juarez Avelar (1942), discípulo do Dr. Ivo Pitanguy, sobre reconstrução de orelha, sua especialidade. Orelhas desproporcionais como hélices, de abano, destroçadas por acidentes e mordidas, rasgadas por facas, inúmeros casos que chegaram às mãos desse mestre da Estética. Explicou como se modela com cartilagem retirada das costas do paciente um novo quadro auricular. Pequena escultura colocada por baixo da pele, escavando no crânio, restaurando membranas, preservando os canais espiralados em concha, salvando o tímpano e seus líquidos que mantém o equilíbrio. Tudo tão delicado, perfeito. Mistura de técnica, artesanato, sensibilidade.

Enquanto ele falava, lembrei que fazia frio no olival do Getsêmani, quando Jesus foi abordado com violência pelos soldados romanos. O discípulo Pedro sacou de uma espada e feriu o servo do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha direita. Jesus ordenou que Pedro guardasse a espada, que se arrependesse daquela reação truculenta. Conhecemos uma pessoa mais pelas suas reações do que pelas suas ações. Tocou a orelha do homem, que se chamava Malco e o sarou. Restaurar uma orelha foi seu último milagre.

Van Gogh (1853-1890), o pintor holandês, gênio incompreendido, célebre por suas pinceladas impulsivas e vigorosas, para onde convergiam loucura e criatividade, numa crise de delírio, cortou a orelha esquerda com uma lâmina afiada. Que teria acontecido naquele exato instante de frenesi e tortura? Uma briga com outro pintor, Gauguin (1848-1903), homem já maduro, arrogante, que abandonara a cidade, a família, o mundo burguês, para encontrar o sentido primitivo da vida, na ilusão de romper amarras? O sentimento de fúria e fracasso diante da falta de recursos e de reconhecimento? O que o levou a enrolar a orelha em papel de seda e enviá-la ao bordel que ele e Gauguin frequentavam? O médico bem que tentou recolocar a orelha de Van Gogh, mas muito tempo havia se passado. Foi inútil.

Com uma bandagem cobrindo o ferimento; um casaco esverdeado, fechado por um botão de madeira; um gorro de feltro preto e um cachimbo no canto da boca, Van Gogh pintou o “Autorretrato com a orelha cortada”. A barba e os cabelos ruivos estão ralos nesse desenho, mas o azul-claro de um olhar fragilizado e trágico parece sondar a nossa alma. Pouco tempo depois, com apenas trinta e sete anos, após uma visão de uma foice segando o campo de trigo, disparou um tiro contra o próprio peito.

Orelha direita. Orelha esquerda. Palestra concluída. Bondade e Amor à Beleza emanam desse cirurgião que reconstrói orelhas, que devolve a autoestima às pessoas.

Ficou impregnado em mim o mistério do ouvido humano, símbolo da comunicação recebida e passiva. Da capacidade de compreender, discernir e aceitar. Do som da palavra divina que vibra por tubos, como num instrumento musical.

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