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Crônica - Nossas mortes morridas, matadas e suicidadas, por Lucilene Machado

O Blog do Alex Fraga tem dia de estreia no espaço de literatura. A partir deste sábado, a escritora Lucilene Machado. Doutora em Teoria da Literatura, professora da UFMS estará publicando seus textos. Entre vários prêmios está o II Prêmio Internacional "Gaetano Scardocchia", na Itália em 2009 e o Prêmio Nacional Guavira em 2014. Ela é presidente da União Brasileira de Escritores de Mato Grosso do Sul.

Nossas mortes morridas, matadas e suicidadas

Lucilene Machado


Um amigo disse que sou a melhor “morredeira” que ele conhece. Tive de concordar. Faz parte do meu itinerário de existir. A morte me engana facilmente, tenho dificuldades em reconhecer seus disfarces, seus elegantes trajes, seus sapatos sorrateiros... e quando percebo já é tarde para me desvencilhar de seu grito sem boca, sua língua sem garganta, seu anel sem dedo... tento negociar, resistir com a ternura ácida que me sobra, auscultar a geometria de um corpo longo, que funciona como um caminho estreito que não consigo cruzar. Mas, nada, resta-me a valentia de morrer. Porque morrer não é para qualquer mortal. Morrer é para os corajosos, para os que não conseguem escamotear a angústia, para os que não suportam o vazio, não suportam a falta de sentido, não conseguem aceitar o reducionismo de uma raça estranha, solitária, naufragada e se joga contra o mundo raso, o mundo tosco, árido mesmo tendo pouca resistência. Já morri de homicídio culposo. Sim, aquele sem a intenção de matar e, evidentemente sem a intenção de morrer. Mas, morre-se e é morte matada. Apresentei-me com os meus braços grandes, pernas grandes, desejos nus e intactos, alvos expostos. Foi fácil me acertar. Uma palavra fincou no meu corpo de ausências e outras mil letras me agulharam. Comecei a me contorcer até as portas do fim engolirem meu cadáver. Já morri asfixiada num navio, num cometa, num circo de coisas inventadas, de figuras, simulacros, objetos brilhantes, malabarismos, torres secretas, risos, lágrimas, ventos tecidos com as mãos, encantamentos e muita, muita magia! Fui minha própria metáfora. Teci um tempo de espera e sem querer, enredei-me nas próprias linhas. Foi uma morte silenciosa, ninguém percebeu. A morte que envolve feitiço é muito cruel. Não existe antídoto contra a dor que a antecipa. Ela entra com força visceral e vai corroendo os ossos das ilusões até dissolver qualquer estado que não seja líquido. Outras vezes me suicido mesmo. É um pedido de socorro a ninguém. A sós eu me pertenço. Lavro o meu corpo com a solidão, deixo a ausência ir desatando os infinitos lacres que estancam a vida e durmo na forma mais funda do silêncio. É a morte mais rápida porque posso decidir o dia e a hora. É uma álgebra que suplanta o sonho com determinação. Só os muitos cartesianos dão conta de manejar as ferramentas dessa ruína. Também morri por beleza. E as pessoas perguntavam: por que você morreu? Cheguei a escrever um epitáfio sobre a minha tumba: “morri pela beleza”, mas os musgos cobriram as palavras deixando visível apenas “beleza”, porque o belo não precisa de verbos. São as mortes que Deus nomeia. Uma espécie de dor misturada ao prazer estético, misturada ao gozo de ter vivido a nudez das frases noturnas, ter sido escolhida para aquele papel de ser dona de uma canção solitária, de um poema unificador de corpos ou de uma curta eternidade que se tentou preservar, mas não foi possível. Morrer é muito fácil. Um descuido e as clareiras se abrem para nos enterrar. Algumas pessoas voltam logo, ressuscitam ao terceiro dia. Outras demoram, quando voltam estão quase irreconhecíveis. Eu me deixo soterrada por algum tempo, só retorno quando os verbos voltarem a nascer em mim com a fertilidade das sementes e eu sentir os brotos despontarem, sentir vontade de aparar a chuva com as mãos, e o meu rosto se virar em busca de um novo ar ou um novo vento que alimente a medula de amor, porque só o amor faz a vida renascer. Se eu estiver viva quando esse fio de luz chegar, corro o risco de morrer de novo. Agora mesmo estou morrida. Adentrei em um corpo cheio de portas e me perdi. Calcei o número das fechaduras proibidas, dancei, cantei o canto das concubinas, ignorei os riscos e me afoguei num fio de saliva como se fosse a primeira vez.

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