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Crônica - Noites Brancas e Pretas, por Raquel Naveira

Quinta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de crônica com a poeta e escritora de Campo Grande (MS), Raquel Naveira, com Noites Brancas e Pretas.


NOITES BRANCAS E PRETAS

Raquel Naveira


Um meteoro cruzou o céu de minha cidade. Foi um estouro cintilante. Um fragmento interplanetário. Uma aparição fugaz, cheia de filamentos, como uma lâmpada acesa e quente na atmosfera daquela noite. Noite de estrelas cadentes, de desejos que pulsaram como bólidos em meu peito.

Há noites brancas e pretas. As noites brancas são cheias de angústia, de vazio, de aridez e secura. Estranhos terrores povoam nossa mente como fantasmas. Somos beduínos envoltos em mantos de lã branca, perdidos entre as dunas, os anéis de Saturno brilhando sobre nossas cabeças. O sono não vem. A vigília prossegue, enquanto o leite da lua agrava nossa loucura. Já as noites pretas, de trevas fermentadas, de espaço constelado, de véus sombrios, são o tempo propício para germinações, provas, segredos ocultos que se manifestarão de forma plena, quando vier a aurora com seus tons de pérola.

“Noites Brancas” é o título de um conto do escritor russo Dostoiévski (1821-1881). Uma história romântica, sensível, delicada. Um rapaz solitário conhece uma bela moça, de chapeuzinho amarelo e mantilha negra, chorando encostada numa ponte de São Petersburgo, numa noite branca. Era verão, quando escurece muito tarde. O sol se punha aos poucos, abaixo da linha do horizonte, prenunciando uma madrugada estatelada como claras de ovo em neve. Realmente, o ambiente todo do conto parece esbranquiçado, nevoento. Tornam-se amigos. Durante quatro noites, naquele mesmo lugar, eles se encontram e conversam sobre suas vidas, amores, livros e esperanças. O nome dela era Nastenka. Ele permanece um anônimo sonhador. O rapaz se apaixona, mas o coração de Nastenka espera por outro, por uma promessa, pelo ideal ausente. O eterno confronto entre nossos sonhos e a busca real da felicidade, que, às vezes, está ao nosso lado e não vemos. Um momento de júbilo, de gratidão, seria suficiente para uma vida inteira? É o que ele se indaga, enxugando as lágrimas do rosto dela.

Ah, Dostoiévski! Como amo esse misto de sofrimento e culpa; essa sua capacidade de se exprimir sobre o difícil livre-arbítrio, que limita as escolhas e as consequências nos destinos; esse seu dom de mostrar como somos passíveis de destilar amor infinito e também mal infinito. Bom ler seus romances em noites brancas, esclarecedoras, sem quase acreditar que um homem pode saber tanto sobre o mistério da existência e da espiritualidade.

As noites pretas, conheci outrora, nas fazendas sem luz elétrica. Noites ornamentadas de astros. Estelantes. Lembro-me de uma ocasião, em especial. Estávamos sentados na varanda, quando ouvimos um carro chegando, rente à porteira. Saímos andando pelo campo, de mãos dadas, indo ao encontro do visitante. O negror era tamanho que, não fosse a luz da lanterna, não veríamos nossos pés, nossos passos na grama. Desligávamos a lanterna por um instante e vinha a sensação de que tropeçaríamos, sem ver onde estávamos pisando. No foco da luz passeavam insetos, formigas carregando imensas folhas. Quando apagávamos, o coração se confrangia, pois poderiam surgir cobras e escorpiões. Caminhávamos com passos firmes, um passo de cada vez, sob a luminosa direção, orientados pelo farol. Na porteira, o visitante nos aguardava de pé, os braços abertos de pai e amigo.

Foi numa noite assim, preta, que o meteoro cruzou o céu de minha cidade, como um efêmero foguete.


(Crônica a ser publicada com exclusividade na revista “Conhece-te”, editada por Marcelo Pereira Rodrigues, de Diamantina/Minas Gerais)

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