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Crônica - Mística Felicidade, por Lucilene Machado

Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de crônica da escritora e poeta Lucilene Machado, com seu texto intitulado Mística Felicidade.


MÍSTICA FELICIDADE

Tenho uma admiração secreto-enigmática pelas pessoas que vivem satisfatoriamente felizes. Eu não me dou muito bem com a felicidade, falta-me o hábito. Talvez, mui remotamente talvez, em algum momento eu faça parte desse grupo. Mas só por alguns ínfimos momentos, em tese, estou sempre indo para um lugar que dói. Sei que cada ser tem um protótipo de felicidade e a minha sempre me pareceu em linguagem incolor, além de estagnada e linear, quase sem carga emocional, como ordena o mundo. E eu preciso de conflitos, preciso de palavras antônimas, veias dilatadas, delírio, vibrações, fogo e água. Preciso chorar vez por outra, deixar escorrer sobre a pele a corrente salgada da alma, beijar o resíduo insípido que há em seu sal. Preciso me apaixonar perdidamente para sentir que estou viva e desejar sair às ruas a cumprimentar os transeuntes, dar comida aos pássaros ou apenas sentir o vento tocando a face. Eu preciso da incerteza amorosa para me sentir frágil e ver derrubado o muro invisível de supermulher que me isola do mundo. Eu preciso de dores para sentir que sou gente: dores no corpo para lembrar que a vida é só uma passagem e, a qualquer momento, como os demais, posso desaparecer e dores na alma para tecer o rosto dos meus pensamentos, como o outono tece o céu de cinza e recolhe o dia para fazer majestosa a noite. Preciso de remorsos para não errar de novo, preciso de milagres para não perder a fé, preciso de Deus para me mandar dizer ao povo que marche! Preciso de rituais. Preciso de abandonos para palmilhar o deserto da arte, preciso de mistérios para perceber a poesia. Preciso do celibato para valorizar o sexo na longitude dos olhos fechados, no prazer selvagem das libertações carnais e libações espirituais. Preciso esquecer meu nome, vez em quando, para constatar quem sou, a que vim e qual meu papel neste mundo tão desarraigado do amor. Preciso perder coisas valiosas para me encantar com as pequenas, para vibrar, por exemplo, com o sorriso de um bebê que acaba de chegar ao mundo. Preciso de distâncias para sentir saudades e enxergar o caminho que persigo. Preciso de cortes e cicatrizes para reler continuamente o passado e nunca voltar a ele. Preciso de ficção para mastigar os sonhos por dentro da pele do papel. Preciso da terra ressequida e infértil para provar que sou capaz de recomeçar do nada, como quem ficou sem coisas que possam ser nomeadas por palavras. Preciso de frio para roçar no outro, preciso de vazio para me engravidar de sonhos, de insensatez para me arriscar na busca do desconhecido, de loucura para pisar a brasa da fogueira. Preciso de clausura para ler e ganhar liberdade. Preciso da verdade para desarmar as máscaras solenes, pois a verdade penetra o ventre qual espada desembainhada. Mas preciso também de inverdades, relatividades, excitação do pecado original, do engano, do quase, do que não pôde ser meu. Preciso de uma alegria doméstica, neutra, cega, monótona. Uma alegria da qual se frui sozinho, quase uma opressão. Uma alegria que me dá falta de ar e me obriga a mergulhar na profundidade para respirar. As profundezas são estreitas. Preciso de espaço, minha vida precisa caber em mim para eu usá-la mais dignamente. (Minha vida é mais usada pelos outros do que por mim, porque está muito mais fora do que dentro). Eu não caibo em mim. Não cabemos em nós. Sabemos pouco sobre tudo. Pertencemos a uma felicidade tão primária! Beleza, dinheiro, sexo, gesto de amor, psicotrópicos? Precisamos da vida coletiva porque individualmente a vida dói em alta voltagem. Viver a própria vida é entrar na matéria divina e desorganizar o mundo humano. Uma incongruência que nos condena, ou nos salva. A felicidade é paradoxal. Mesmo Jorge L. Borges, em toda sua genialidade, confessou: “Não fui feliz. Minha mente empenhou-se em simétricas porfias da arte – que entretecem nadas.” Cada geração recolhe um critério novo sobre o que é felicidade, mas em qualquer tempo e em qualquer eternidade, ela será sempre essa luz sedenta de si mesma, sedenta do movimento da vida para existir. MÍSTICA FELICIDADE Tenho uma admiração secreto-enigmática pelas pessoas que vivem satisfatoriamente felizes. Eu não me dou muito bem com a felicidade, falta-me o hábito. Talvez, mui remotamente talvez, em algum momento eu faça parte desse grupo. Mas só por alguns ínfimos momentos, em tese, estou sempre indo para um lugar que dói. Sei que cada ser tem um protótipo de felicidade e a minha sempre me pareceu em linguagem incolor, além de estagnada e linear, quase sem carga emocional, como ordena o mundo. E eu preciso de conflitos, preciso de palavras antônimas, veias dilatadas, delírio, vibrações, fogo e água. Preciso chorar vez por outra, deixar escorrer sobre a pele a corrente salgada da alma, beijar o resíduo insípido que há em seu sal. Preciso me apaixonar perdidamente para sentir que estou viva e desejar sair às ruas a cumprimentar os transeuntes, dar comida aos pássaros ou apenas sentir o vento tocando a face. Eu preciso da incerteza amorosa para me sentir frágil e ver derrubado o muro invisível de supermulher que me isola do mundo. Eu preciso de dores para sentir que sou gente: dores no corpo para lembrar que a vida é só uma passagem e, a qualquer momento, como os demais, posso desaparecer e dores na alma para tecer o rosto dos meus pensamentos, como o outono tece o céu de cinza e recolhe o dia para fazer majestosa a noite. Preciso de remorsos para não errar de novo, preciso de milagres para não perder a fé, preciso de Deus para me mandar dizer ao povo que marche! Preciso de rituais. Preciso de abandonos para palmilhar o deserto da arte, preciso de mistérios para perceber a poesia. Preciso do celibato para valorizar o sexo na longitude dos olhos fechados, no prazer selvagem das libertações carnais e libações espirituais. Preciso esquecer meu nome, vez em quando, para constatar quem sou, a que vim e qual meu papel neste mundo tão desarraigado do amor. Preciso perder coisas valiosas para me encantar com as pequenas, para vibrar, por exemplo, com o sorriso de um bebê que acaba de chegar ao mundo. Preciso de distâncias para sentir saudades e enxergar o caminho que persigo. Preciso de cortes e cicatrizes para reler continuamente o passado e nunca voltar a ele. Preciso de ficção para mastigar os sonhos por dentro da pele do papel. Preciso da terra ressequida e infértil para provar que sou capaz de recomeçar do nada, como quem ficou sem coisas que possam ser nomeadas por palavras. Preciso de frio para roçar no outro, preciso de vazio para me engravidar de sonhos, de insensatez para me arriscar na busca do desconhecido, de loucura para pisar a brasa da fogueira. Preciso de clausura para ler e ganhar liberdade. Preciso da verdade para desarmar as máscaras solenes, pois a verdade penetra o ventre qual espada desembainhada. Mas preciso também de inverdades, relatividades, excitação do pecado original, do engano, do quase, do que não pôde ser meu. Preciso de uma alegria doméstica, neutra, cega, monótona. Uma alegria da qual se frui sozinho, quase uma opressão. Uma alegria que me dá falta de ar e me obriga a mergulhar na profundidade para respirar. As profundezas são estreitas. Preciso de espaço, minha vida precisa caber em mim para eu usá-la mais dignamente. (Minha vida é mais usada pelos outros do que por mim, porque está muito mais fora do que dentro). Eu não caibo em mim. Não cabemos em nós. Sabemos pouco sobre tudo. Pertencemos a uma felicidade tão primária! Beleza, dinheiro, sexo, gesto de amor, psicotrópicos? Precisamos da vida coletiva porque individualmente a vida dói em alta voltagem. Viver a própria vida é entrar na matéria divina e desorganizar o mundo humano. Uma incongruência que nos condena, ou nos salva. A felicidade é paradoxal. Mesmo Jorge L. Borges, em toda sua genialidade, confessou: “Não fui feliz. Minha mente empenhou-se em simétricas porfias da arte – que entretecem nadas.” Cada geração recolhe um critério novo sobre o que é felicidade, mas em qualquer tempo e em qualquer eternidade, ela será sempre essa luz sedenta de si mesma, sedenta do movimento da vida para existir. MÍSTICA FELICIDADE Tenho uma admiração secreto-enigmática pelas pessoas que vivem satisfatoriamente felizes. Eu não me dou muito bem com a felicidade, falta-me o hábito. Talvez, mui remotamente talvez, em algum momento eu faça parte desse grupo. Mas só por alguns ínfimos momentos, em tese, estou sempre indo para um lugar que dói. Sei que cada ser tem um protótipo de felicidade e a minha sempre me pareceu em linguagem incolor, além de estagnada e linear, quase sem carga emocional, como ordena o mundo. E eu preciso de conflitos, preciso de palavras antônimas, veias dilatadas, delírio, vibrações, fogo e água. Preciso chorar vez por outra, deixar escorrer sobre a pele a corrente salgada da alma, beijar o resíduo insípido que há em seu sal. Preciso me apaixonar perdidamente para sentir que estou viva e desejar sair às ruas a cumprimentar os transeuntes, dar comida aos pássaros ou apenas sentir o vento tocando a face. Eu preciso da incerteza amorosa para me sentir frágil e ver derrubado o muro invisível de supermulher que me isola do mundo. Eu preciso de dores para sentir que sou gente: dores no corpo para lembrar que a vida é só uma passagem e, a qualquer momento, como os demais, posso desaparecer e dores na alma para tecer o rosto dos meus pensamentos, como o outono tece o céu de cinza e recolhe o dia para fazer majestosa a noite. Preciso de remorsos para não errar de novo, preciso de milagres para não perder a fé, preciso de Deus para me mandar dizer ao povo que marche! Preciso de rituais. Preciso de abandonos para palmilhar o deserto da arte, preciso de mistérios para perceber a poesia. Preciso do celibato para valorizar o sexo na longitude dos olhos fechados, no prazer selvagem das libertações carnais e libações espirituais. Preciso esquecer meu nome, vez em quando, para constatar quem sou, a que vim e qual meu papel neste mundo tão desarraigado do amor. Preciso perder coisas valiosas para me encantar com as pequenas, para vibrar, por exemplo, com o sorriso de um bebê que acaba de chegar ao mundo. Preciso de distâncias para sentir saudades e enxergar o caminho que persigo. Preciso de cortes e cicatrizes para reler continuamente o passado e nunca voltar a ele. Preciso de ficção para mastigar os sonhos por dentro da pele do papel. Preciso da terra ressequida e infértil para provar que sou capaz de recomeçar do nada, como quem ficou sem coisas que possam ser nomeadas por palavras. Preciso de frio para roçar no outro, preciso de vazio para me engravidar de sonhos, de insensatez para me arriscar na busca do desconhecido, de loucura para pisar a brasa da fogueira. Preciso de clausura para ler e ganhar liberdade. Preciso da verdade para desarmar as máscaras solenes, pois a verdade penetra o ventre qual espada desembainhada. Mas preciso também de inverdades, relatividades, excitação do pecado original, do engano, do quase, do que não pôde ser meu. Preciso de uma alegria doméstica, neutra, cega, monótona. Uma alegria da qual se frui sozinho, quase uma opressão. Uma alegria que me dá falta de ar e me obriga a mergulhar na profundidade para respirar. As profundezas são estreitas. Preciso de espaço, minha vida precisa caber em mim para eu usá-la mais dignamente. (Minha vida é mais usada pelos outros do que por mim, porque está muito mais fora do que dentro). Eu não caibo em mim. Não cabemos em nós. Sabemos pouco sobre tudo. Pertencemos a uma felicidade tão primária! Beleza, dinheiro, sexo, gesto de amor, psicotrópicos? Precisamos da vida coletiva porque individualmente a vida dói em alta voltagem. Viver a própria vida é entrar na matéria divina e desorganizar o mundo humano. Uma incongruência que nos condena, ou nos salva. A felicidade é paradoxal. Mesmo Jorge L. Borges, em toda sua genialidade, confessou: “Não fui feliz. Minha mente empenhou-se em simétricas porfias da arte – que entretecem nadas.” Cada geração recolhe um critério novo sobre o que é felicidade, mas em qualquer tempo e em qualquer eternidade, ela será sempre essa luz sedenta de si mesma, sedenta do movimento da vida para existir.


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