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Crônica - Dom Sabiá, por Sylvia Cesco

  • Foto do escritor: Alex Fraga
    Alex Fraga
  • 15 de nov. de 2024
  • 3 min de leitura


Sexta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de crônica com a escritora e poeta de Campo Grande (MS), Sylvia Cesco, com "Dom Sabiá".


Você Acha?

Sylvia Cesco


Dom Sabiá surgiu mais cedo que de costume no pé de tarumã e iniciou seu magistral canto de afinada flauta. Elena avistou-o da porta da cozinha assim que a abriu, já com uma xícara de bom café nas mãos para sorver a quentura de uma manhã que lhe prometia arrepios ensolarados naquele Recanto sem qualquer geografia, mapeado apenas com os limites dos sentimentos e das emoções. De imediato, pensou no cubano Pablo, o Milanês, lendário compositor dos movimentos musicais do final dos anos sessenta, que se declarou tão lindamente à sua mulher Yolanda, quando distante dela ficou: “Mi soledad se siente acompañada”. E entre um golito e outro daquela bebida, cujo nome aprendera com o irmão ter vindo da palavra árabe “gahwa”, traduzida por “ vinho”, Elena sentia-se plena e grandiosamente acompanhada em sua solidão. Não sentia mais pressa de viver. Não sentia mais pressa de morrer. Não sentia mais pressa de nada. Tal como a criança que é colocada de castigo pelos modernos educadores num cantinho da sala para refletir sobre o que fizera de errado, Elena, também no seu Recantinho, estava quase se convencendo de que o mundo encontrava-se às avessas: que era no minimalismo das ações, na contenção dos sentimentos e principalmente do exagero de palavras para falar de si mesmo que certas gentes conseguiam se despir de sua limitada condição humana para flertar com sua divindade. Flertar...Será que para os jovens de hoje esse verbo faria algum sentido? A mulher balançou a cabeça pensativa, numa atitude de quase descrédito. Ela, que tivera a sorte de ter vivido no “tempo da delicadeza” buarqueano, em que o verbo flertar era compreendido como “olhar com tranquila ternura” o mundo e tudo de bom e bonito que nele existia, duvidou. Teve vontade de parodiar aqueles antigos versos de Francisco Otaviano: “Quem passou pela vida em branca nuvem /e em plácido repouso adormeceu (...)”. Tentou: “Quem passou pela vida em branca nuvem / e a vivência de flertar não conheceu (...) / foi espectro de homem, não foi homem /só passou pela vida, não viveu”. Dom Sabiá, de onde estava, pressentiu o surgimento daquele estranho e inconformado monólogo mental de Elena. Parou seu canto e se achegou mais, pousando a poucos passos dela, mais precisamente no murinho da varanda. Com imperceptível sutileza, foi bicando e foi entrando naqueles pensamentos femininos, até se transformar num hipotético e necessário personagem, lançando uma pergunta, acompanhada de um sábio conselho: - “E o que isso lhe importa, Elena? Precisa aceitar que o mundo vive de fases. E ele as tem muitas, bem mais do que a Lua e do que a Borboleta que só têm quatro”. Elena, que já tinha se acostumado a conversar com qualquer espécie de pássaro, grande ou pequeno quando os avistava naquele grande quintal, nem se espantou com o fato de estar escutando aquela avesita marron, de barriga levemente alaranjada, cujo nome em tupi significava “aquele que reza muito”, e respondeu com sincero lamento: - “Mas, Dom, isso é uma tristeza, não acha? Como pode um jovem hoje não saber o quão maravilhoso é flertar, “olhar com tranquila ternura” a vida que brota a cada minuto ao seu redor?”. Ora, é do conhecimento de todos que os sabiás, como todos os pássaros, são irrequietos e Elena imaginou que Dom Sabiá sequer escutara sua pergunta e já estaria observando uns besourinhos caminhando com graça sobre um chão cinzento de cimento. De modo que foi mesmo uma surpresa quando ouviu Dom lhe respondendo com outra breve pergunta: -“Você acha?”- ”Sim, acho uma lástima” disse Elena. O pássaro ficou pensativo. Quase respondeu: “Ah, vocês, mulheres!”. Mas, permaneceu com o bico calado, porque isso lhe pareceu um chavão desproposital e tudo o que aquela solitária mulher- tomando uma xícara de bom ( agora, já frio ) café- estava precisando naquele momento era o carinho de um aconchego. E naquela manhã, o Recanto sem geografia, mapeado apenas com os limites dos sentimentos e das emoções, ouviu o enternecido e carinhoso canto de um sabiá.

 
 
 

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15 de nov. de 2024
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Depois do café preto sem açúcar e o bolo de milho com queijo, essa crônica tem o sabor de tudo...

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