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Crônica - Depois de cem anos, solidão!, por Tânia Souza



Terça-feira no Blog do Alex Fraga é dia de poesia com a professora, poeta e escritora de Campo Grande (MS), Tânia Souza, com , Depois de cem anos, solidão!


Depois de cem anos, solidão!


Depois de ler por cem anos, de solidão sou tocada. Fecho as janelas, é o fim da viagem. Quando olho ao meu redor, percebo que acabei de chegar. Tudo o que vejo, conheço e vivo, de repente parece-me tão novo e claro. E apesar das sombras, sinto um sol ardendo em mim.

Prossigo no novo caminho, a mata fechada ferindo os espaços, mas não posso deter-me. Livro-me dos galhos e do verde, e saio finalmente em um pequeno povoado. Ao longe, meus olhos se enchem com o que descubro: é um menino brincando com um peixinho dourado. Decido continuar, e apesar das sombras, sinto um sol ardendo em mim.

Prossigo, e no meu caminho, uma criança de olhos grandes e assustados não conseguiu evitar que eu a visse a comer a cal de uma casa. Cal, estranheza tão familiar... Seus dentes devoravam e eu podia ouvir seu ruidoso mastigar junto a tão inocentes olhos. Fome. De que? A memória tenta enganar-me, mas ainda me perco... Tenho fome também.

Apesar da sombra, o sol, e sigo descobrindo em cada canto um re-conhecer, enlevo e medo. E os sons aumentam em fúrias, que barulho-canção é este? E ao longe vejo chegando, pressa e ânsia; urgente e garboso militar, escoltas de soldados. Uma velha melancólica o fita, onde estava que não a via? Esteve sempre comigo tão plena de histórias e dores? Os olhos vagos, vazios, me lembram alguém... Quem? Não sei, não importa, seria impossível. Ou seriam neste descaminhos tudo tão novo, tão a espera de ser visto? Parada diante de uma bela casa, sem sombras, apenas sol. O cenário ao meu redor começa a mudar, ouço estranhos e amigos sons. Pobre de mim, quem sou? Sei apenas que o vento me arrasta, giro cada vez mais rápido e já não posso nem quero fugir.

— Maconndoo! Sussurram-me os ventos do tempo.

.....Macondoo!

Aurelianos, Ursulas e Remédios por toda parte, entranhados em mim, no meu sangue, Márquez me arrasta, em minha alma entranhado. Já não sei quem sou, quem fui. Não importa, tudo o que quero é sentar-me a sombra do velho castanheiro e conversar com o senhor que ali vejo.

O vento agora aumenta, e todos se afastam de mim, e sou levada, para qual caminhos não sei, mas sinto Remédios mastigando furiosamente a cal dentro de mim, todo um ciclo se fechando, lentamente, meu próprio ciclo a se encerrar... e apesar das sombras, o sol.

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