• Alex Fraga

Crônica - Cedros, por Raquel Naveira

Nesta quinta-feira, o Blog do Alex Fraga tem a colaboração de uma das melhores e principais escritora, poeta do Mato Grosso do Sul: Raquel Naveira. Ela é formada em Letras e em Direito pela Universidade Católica Dom Bosco (UCDB). É professora universitária aposentada pela UCDB, crítica literária e palestrante. Sua crônica "Cedros" é simplesmente linda !

CEDROS

Raquel Naveira


Os cedros são árvores imponentes, imensas, agrupadas como broches verdes. Cones majestosos que se espalhavam pelas montanhas da região mediterrânea. Suas altas folhagens buscavam o sol total, enquanto suas raízes se encharcavam nos regatos. Dos seus troncos sagrados saíram navios, altares e templos. Testemunharam impérios, religiões e raças. Por tudo isso, a bandeira do Líbano traz ao centro o cedro como símbolo nacional. Nada poderia mesmo se comparar à grandeza desse cedro. Aves do céu se aninhavam em seus ramos, animais eram gerados sob sua copa. Quando o cortaram, a nação cobriu-se de preto e terrível foi o som de sua queda.

Hoje o cedro é comum e encontra-se por todo mundo em parques, jardins e avenidas. Há uma cidade de Mato Grosso do Sul que ficou famosa por causa de um pé-de-cedro: Coxim, município da parte norte do Estado, dominada antigamente por índios das etnias Caarapó e Bororo. Aliás, “cojin”, em língua bororó significa “peixe”. Coxim é ponto de pesca, com rios, cachoeiras, serras, lindas paisagens.

O compositor, Zacarias Mourão, escreveu a letras da emblemática canção “Pé-de-cedro”, que começa assim: “Foi no belo Mato Grosso, há vinte anos atrás/ Naquele tempo querido que não volta nunca mais/ Nas matas onde eu caçava, um pequeno arbusto achei/ levando pra minha casa no meu quintal eu plantei.” O menino partiu para longe, para amar e sofrer. Quando voltou ao seu lar, reencontrou o pé-de-cedro crescido, frondoso. Chorou de mágoa e de saudade de um tempo passado, o tempo mágico da infância, agora revivido.

Zacarias (1928-1989) viveu em Petrópolis, Rio de Janeiro, mas não se adaptou por lá. Resolveu morar em São Paulo, onde se tornou Policial Rodoviário. Cursou também jornalismo na Faculdade Casper Líbero. Foi radialista, produtor, empresário, diretor da Rádio Bandeirantes. Ganhou diversos prêmios em festivais de música sertaneja. Gravou sucessos com as Irmãs Galvão, Tibagi e Miltinho, Dino Rocha, entre outros. Algumas de suas músicas: “A Estrela que surgiu”, com Mário Albanese, “Alvorada de Coxim”, com Jorge Castello, “Cantar de Seriema”, com Nízio. Os títulos revelam a profunda ligação com sua terra e com o universo.

Retornou a Mato Grosso do Sul, que era seu maior sonho, em 1981, sempre trabalhando em rádio e TV. Oito anos depois, teve a vida interrompida numa madrugada fria. Aos 61 anos, foi encontrado morto dentro de casa, com uma facada na altura do coração. O assassinato permanece misterioso e não esclarecido até os dias de hoje.

Depois dessa tragédia, foi erguido em Coxim um busto de Zacarias Mourão, perto do pé-de-cedro. Outros cedros foram plantados na praça pública, espaço comunitário e local turístico.

O muralista e street art, Eduardo Kobra (1975), que tem obras por países como Estados Unidos, França, Rússia e Itália, criou um painel: entre mosaicos multicoloridos, o retrato realista do rosto de Zacarias Mourão e um braço suspenso, tocando eternamente as cordas de um violão.

Não se esquecerá jamais que um poeta, comovido e abatido, regou com lágrimas e sangue as raízes dos cedros aromáticos que crescem naquele portal pantaneiro.