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Crônica - Casa de Ruy Barbosa, por Raquel Naveira

Quinta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de crônica da escritora e poeta sul-mato-grossense Raquel Naveira, com sua "Casa de Ruy Barbosa".


CASA DE RUY BARBOSA

Raquel Naveira



Rio de Janeiro. Morro Santa Marta. Rua São Clemente. Casa de Ruy Barbosa. Mansão neoclássica, aristocrática, no meio de um vasto jardim. Foi o Barão da Lagoa que comprou o terreno e construiu a casa, terminando-a em 1850. A família de Rui ocupou o imóvel depois de voltar da Inglaterra, onde se exilara por motivos políticos. Rui estava com 46 anos, casado com Dona Maria Augusta há 19 anos e o casal tinha cinco filhos. Em homenagem à sua mulher, Rui batizou a casa de “Vila Maria Augusta” _o nome de minha neta, pensei, ao ver a inscrição na fachada lateral. Nessa casa Rui viveu até morrer, em 1923, aos 74 anos de idade.

*

Que emoção andar por esse jardim cheio de jambeiros, mangueiras e pitangueiras! Recuei no tempo e posso ver Rui chegar a qualquer momento, com suas botinas marrons, seu chapéu de feltro cinza, a distinta camisa com gravata branca de laço, apoiado sobre uma bengala. Seria ele aquele vulto franzino, sentado num banco sob a pérgula metálica forrada de folhas de parreira? Será ele? Parece cansado... Derrotado nas urnas em duas campanhas a Presidente da República, depois de tantas lutas, tantas perseguições; depois de representar brilhantemente o Brasil na II Conferência de Paz em Haia, numa atuação que lhe valeu o cognome de Águia de Haia e fez dele um ídolo nacional; depois de defender tantas causas: liberalismo, abolicionismo, liberdade dos cultos, sufrágio direto... Sim, parece cansado. Parece que diz algo. Aproximo-me do pé de fruta-pão e ouço sua voz:

“_ Sinto vergonha de mim por ter sido educador de parte desse povo, por ter batalhado sempre pela justiça, por compactuar com a honestidade, por primar pela verdade e por ver este povo já chamado varonil enveredar pelo caminho da desonra.”

Rui levanta-se com dificuldade, entra na casa, eu o sigo. O homem austero, metódico, com uma grande capacidade de trabalho, vai passar mais um dia, mais um século, entre seus livros e escritos. Alcança o gabinete gótico, a imensa biblioteca, vai até o escritório, senta-se em frente à escrivaninha. Antes de molhar a pena no tinteiro, desabafa:

“_ Sinto vergonha de mim por ter feito parte de uma era que lutou pela democracia, pela liberdade de ser, e ter que entregar aos meus filhos a derrota das virtudes pelos vícios, a ausência da sensatez no julgamento da

verdade, a negligência com a família, célula-mater da sociedade, a demasiada preocupação com o “eu” feliz a qualquer custo, buscando a tal “felicidade” em caminhos eivados pelo desrespeito para com seu próximo. Tenho vergonha de mim pela passividade em ouvir, sem despejar meu verbo, a tantas desculpas ditadas pelo orgulho e pela vaidade, e tanta falta de humildade para reconhecer um erro cometido, a tantos ‘floreios’ para justificar atos criminosos e tanta relutância em esquecer a antiga posição de sempre ‘contestar’, voltar atrás e mudar o futuro .”

Caminha até a sala de visitas, dirige-se aos convivas invisíveis com sua oratória solene, sua eloquência clássica, herdada das lições de retórica:

“_ Tenho vergonha de mim, pois faço parte de um povo que não reconheço, enveredando por caminhos que não quero percorrer. Tenho vergonha da minha impotência, da minha falta de garra, das minhas desilusões e do meu cansaço. Não tenho para onde ir pois amo este meu chão, vibro ao ouvir meu Hino e jamais usei a Bandeira para enxugar o meu suor ou enrolar meu corpo na pecaminosa manifestação de nacionalidade.”

Rui entra na cozinha, onde o fogão a lenha estala caldas de doces cristalinos em tachos de cobre, desce as escadas de volta ao jardim, aproxima-se das cavalariças onde um coupé negro o espera, entra no coche, dá ordem de partida. Tenho a impressão de que me olhou fixamente antes da última confissão:

“ Ao lado da vergonha de mim, tenho pena de ti, povo brasileiro! De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.”

Pôr-do-sol. Saio da casa de Rui pelas ruas que lembram os voluntários da pátria. Nem sei, Rui, se tudo isso aconteceu agora ou no passado.

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