• Alex Fraga

Crônica - Carnaval e Cinzas na poesia de Manuel Bandeira, por Raquel Naveira

Quinta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de texto da escritora e poeta sul-mato-grossense Raquel Naveira, com "Carnaval e Cinzas na poesia de Manuel Bandeira.


CARNAVAL E CINZAS NA POESIA DE MANUEL BANDEIRA

Raquel Naveira


Manuel Bandeira (1886-1968) soube mesclar tradição literária e ruptura, passado e presente, em sua obra poética. Em 1917, após uma luta feroz contra a tuberculose que o impedira de estudar arquitetura e o tornara um jovem deprimido, quase inválido, publica A Cinza das Horas, um dos marcos fundamentais do Modernismo. Lirismo forte, espontâneo, vindo de fontes íntimas. Cinzas de mágoa, de ressentimento, de morbidez banhada por um simbolismo tardio. São cinquenta poemas de desencanto, de desalento, de horas ardentes das quais restaram cinza fria (“_Esta pouca cinza fria...). De amor que era chama e se transformou em fumaça (“O fumo vem, a chama passa...).

Em 1919, surge Carnaval, que consolida o caráter inovador de sua poesia. Trinta e três poemas de evocação a Baco, satânica, misto de júbilo e dor. Bandeira mergulha no clima da Commedia dell’Arte, estilo teatral nascido no século XVI, uma sátira de costumes muito popular na Itália. As peças eram apresentadas nas ruas e praças, em carroças. Saltam os personagens de um triângulo amoroso: Pierrô que ama Colombina, que ama Arlequim, que também deseja Colombina. Pierrô é o palhaço triste, apaixonado, com ar lunático. Veste-se de roupas largas e brancas, o rosto pintado de alvaide de chumbo branco, com uma lágrima desenhada na face. O Arlequim é o palhaço espertalhão, malandro, divertido, carismático, debochado. Faz movimentos acrobáticos, usa roupa de losangos coloridos. Colombina, a Pombinha, é criada da filha do avarento Pantaleão, um tirano mercador de Veneza. É uma moça bela, quase tão refinada quanto sua ama. Alegre, fútil, sedutora, volúvel. Sabe dançar e enfeitiçar. Seu coração pertence ora a Pierrô, ora a Arlequim (“Que essa metade é talvez todo amor/ De Colombina). E Bandeira visualiza em seus versos febris, ofegantes, sintéticos, o drama bufo das consciências dilaceradas. No longo “Canção das Lágrimas de Pierrô”, numa sala de espelhos que brilham com lustres de dez mil velas multicores, o Pierrô entra num salto súbito. Todos se espantam com suas piruetas e com a paixão com que toca um alaúde até arrebentar as cordas. Há sangue em seus dedos. Fúria de rejeição (“_Negaste a pele macia/ à minha linda paixão!). De repente, o palhaço que estava de rastros, pula, eleva-se tão alto como se fosse “romper a esfera dos astros”. Em “Pierrô Branco”, o bobo palhaço mostra a fonte esquálida, mortificada de insônias, cintilando como “chama pálida, de pálida, pálida mica...”). Como Bandeira ama reforçar seus pensamentos com o recurso da repetição de uma palavra. Em “Arlequinada”, Pierrô pergunta a Colombina a sua idade. Ela lhe parece uma criança frágil, delicada, franzina, de seios pequeninos e inocentes. Pierrô pede perdão pela ousadia de cantar seus encantos de menina. Já o “Pierrô Místico” procura inutilmente no leito os abraços de Colombina e constata que a “volúpia é bruma que esconde abismos de melancolia.” Na pele de “Pierrette”, o poeta toma a voz de Colombina. Ela busca, num ardil, alguém com alma decadente e degenerada, que lhe traga um filtro erótico e suplica: “_ Vem, meu Pierrô, ó minha sombra.” O Carnaval continua em seu ritmo frenético até chegar ao “Sonho de uma Noite de Terça-Feira Gorda”. Os amantes caminhando pelas ruas, entre a turba, mascarados com fantasias de dominós negros. E “Assim, de negro, assim por fora inteiramente de negro- Dentro de nós, ao contrário, era tudo claro e luminoso.” A “Quarta-Feira” vem com suas cinzas. Um Pierrô

doloroso passa com sua túnica feita de sonho e desgraça. No poema “Epílogo”, que fecha o livro, o poeta confessa que gostaria de compor um carnaval subjetivo, fresco, cheio de amor e mocidade, como o do poema de Schumann, mas, quando acabou, o seu poema tinha a “morta cor da senilidade e da amargura...” “Um Carnaval triste, sem nenhuma alegria.”

Rememoremos a linha do tempo: em 1917, Manuel Bandeira, chamado de “São João Batista do Modernismo”, publica A Cinza das Horas. Em 1919, Carnaval. Em 1921, após alguns anos de intensa correspondência sobre arte e estética, conhece pessoalmente Mário de Andrade (1893-1945), o “Papa do Modernismo”. Esses livros entusiasmaram toda a geração paulista. Em 1922, entre os dias 13 e 17 de fevereiro, acontece a Semana de Arte Moderna, no Teatro Municipal de São Paulo, pronta a romper com os padrões artísticos vigentes. Nesse mesmo ano, Mário de Andrade lança Pauliceia Desvairada, vinte e dois poemas curtos, exaltando segmentos de São Paulo (“Anhangabaú”, “Rua de São Bento”, “Tietê”...), de versos livres, introduzindo as revolucionárias ideias vanguardistas. A capa do livro: losangos coloridos como a veste do Arlequim (“Arlequinal... Trajes de losangos... Cinza e ouro... Luz e bruma...”). E ainda no poema “Inspiração”, o grito estonteante, duas vezes repetido: “São Paulo! Comoção de minha vida...” Temos claramente Mário de Andrade influenciado por Bandeira e seu palco de figuras dramáticas.

Cinzas, Carnaval, Arlequinal. Manuel Bandeira e Mário de Andrade, verso e reverso da medalha. Vejo, de repente, sobre o asfalto, um chapéu de guizos nas pontas, atirado com força sobre a realeza da Poesia.

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