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Crônica - Buraco das Araras, por Raquel Naveira

Quinta-feira no Blog do Alex Fraga é dia de crônica com a poeta e escritora de Campo Grande (MS), Raquel Naveira, com Buraco das Araras.


BURACO DAS ARARAS

Raquel Naveira


Como é lindo o Buraco das Araras. Fica no meio do cerrado, pertinho da cidade de Jardim, no Mato Grosso do Sul. Uma enorme cratera circular de areia, de pedregulhos rolados, de calcário fraturado, de rochas em colapso. Lá embaixo, os conglomerados de árvores, palmeiras, troncos ocos, um fio de água. E centenas de araras em cortejo, geralmente aos pares, livre, soltas, seguindo seus instintos, fazendo ninhos nos vãos das pedras, buscando frutos e sementes de pequi e pimenta.

O termo “arara” vem do tupi e significa “ave de muitas cores”. As araras têm cauda longa, bico curvado em forma de castanha, língua espessa, plumagem de coloração vibrante, vistosa: o vermelho, o verde, o azul-cobalto. Os olhos piscam entre pálpebras amarelas. Prontas para serem observadas pelas lentes do fotógrafo, capturadas nas telas dos artistas, desafiadas a nos causarem pasmo e choques visuais. Por causa desse fascínio que despertam, as araras foram sempre alvo de comércio clandestino, transportadas para todos os cantos do mundo, nas gaiolas, nos porões dos navios, nos caminhões em estradas poeirentas. Transformaram-se no símbolo da necessidade da proteção ambiental.

As araras cruzam a grande dolina, uma das maiores da América. Entre uma guampa e outra de tereré, o guia nos conta lendas e casos. O local era utilizado para desovar o que jamais deveria ser encontrado: corpos, carros, motos, armas, ossadas, carcaças, segredos funestos de um passado morto. Tudo ficava corroído, oculto, decomposto sob o rastejar dos jacarés e das sucuris.

Como são comunicativas, animadas e barulhentas as araras. Têm o dom do verbo, o enigma das línguas arcaicas, o poder da voz, das palavras cifradas como ordem de comando. Manifestam grandes acordos diplomáticos com o vento e as nuvens. Notas agudas num compasso de cristal. A cantora Tetê Espíndola (1954...), que tem pássaros na garganta, imita as araras, interage com elas à beira da erosão. Uma conversa curiosa, inteligente. Queria ter esse talento e dizer às araras que hoje estou melancólica, mas que ainda aguardo algo bom e extraordinário acontecer, que ainda corro atrás dos meus sonhos.

Mafra Carbonieri (1935...), advogado e juiz criminal, escreveu um romance realista, épico, intitulado O Abismo, sobre a imigração italiana em São Paulo, no começo do século XX, cheio de tipos humanos que desfilam como almas desprendidas de antigos álbuns. A metalinguagem, a paixão pela literatura, a psicanálise, o sexo como descoberta fatal do próprio ego, são alguns de seus temas. Quando perguntado sobre o porquê do livro chamar-se O Abismo, ele contou que, ainda adolescente, escorregou na borda de um abismo. A sensação de pavor, de voragem, de sorvedouro, de precipício, ficou impregnada nele para sempre. O estado mental da queda, a legião de monstros no fundo do desbarrancado. O voo das aves agourentas. Agarrou-se a um galho de árvore até o salvamento. Relembrou então esse momento, imaginando a boca do abismo devorando tantas recordações violentas.

Quando cheguei na borda do Buraco das Araras (ele não tinha grades, nem mirantes como hoje), tive a experiência de dançar na quina do abismo. Olhei para ele e ele olhou para mim. Levaram-me a um abismo e não me esqueci. Mas as araras eram tão

dóceis e azuis, que uma alegria imensa tomou conta de mim. Nunca amei tanto em minha vida.

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