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Crônica - A natureza sul-mato-grossense na literatura, por Raquel Naveira

Quinta-feira no Blog do Alex Fraga é dia dos textos da poeta e escritora sul-mato-grossense Raquel Naveira, com: A natureza sul-mato-grossense na literatura.

A NATUREZA SUL-MATO-GROSSENSE NA LITERATURA

Raquel Naveira


Nossa terra é dotada de esplêndida beleza natural, registrada na nossa literatura.

Alfredo D´Escragnolle Taunay nasceu no Rio de Janeiro, então capital do Império, em 1843. Durante a guerra do Paraguai, Taunay seguiu como ajudante da comissão de engenheiros, junto às tropas que se destinavam a Mato Grosso. Em julho de 1865, partiu de São Paulo a expedição que daria combate às forças paraguaias e que proporcionaria a Taunay escrever o famoso livro A Retirada da Laguna, onde narra com tintas realistas e trágicas a fadiga da marcha, a insalubridade do clima no Pantanal mato-grossense, a malária e a beribéri dizimando os soldados e oficiais brasileiros. Escreveu também Inocência, um romance regionalista em que Taunay descreve os hábitos, os costumes e cenários da vida dos sertão mato-grossense. Conta um caso de amor contrariado ligado à morte entre a bela e amiga Inocência e um “médico” viajante, o Cirino. Transcrevemos um trecho do capítulo “O sertão e o sertanejo”, para constatarmos como Inocência inaugurou nossa literatura, tornando-se romance símbolo de nosso Estado:

“Corta extensa e quase despovoada zona da parte sul-oriental da vastíssima Província de Mato Grosso a estrada que da vila de Sant´Ana do Paranaíba vai ter ao sítio abandonado de Camapuã. Desde aquela povoação, assente próximo ao vértice do ângulo em que confinam os territórios de São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso até o rio Sucuriú, afluente do majestoso Paraná, isto é, no desenvolvimento de muitas dezenas de léguas, anda-se comodamente, de habitação em habitação, mais ou menos chegadas umas às outras; rareiam, porém, depois as casas, mais a mais, caminham-se largas horas, dias inteiros sem se ver morada nem gente até o retiro de João Pereira, guarda avançada daquelas solidões, homem chão e hospedeiro, que acolhe com carinho o viajante desses alongados paramos, oferece-lhe momentâneo agasalho e provê da matalotagem precisa para alcançar os campos de Miranda e Pequiri, ou da Vacaria e Nioaque, no Baixo Paraguai” (Taunay, 1972:21).


Manoel de Barros, nascido na beira do rio Cuiabá em 1916 e falecido em Campo Grande, em 2014, renovador da linguagem, invoca sua terra em seus textos, principalmente no Livro de Pré-Coisas, um “roteiro para uma excursão poética no Pantanal”, como ele mesmo aponta. O livro, segundo o poeta, é “uma anunciação” do Pantanal, em que ele apresenta Corumbá; o rio Paraguai; o rio Taquari; o erotismo criador da natureza; a carreta pantaneira; o trabalho do homem do campo; as assombrações; a sua infância entre lesmas, formigas e vaga-lumes; a descrição de aves e animais como urubus, socós-bocas-d´água, tatus, quero-queros, garças e quatis. Um trechinho para sorvermos a natureza em Manoel de Barros:


“Com pouco, esse rio se entendia de tanta planura, de tanta lonjura, de tanta grandura, e volta para sua caixa. Deu força para as raízes. Alargou, aprofundou alguns braços ressecos. Enxertou suas areias. Fez brotar sua flora. Alegrou sua fauna. Mas deixou no pantanal um pouco de seus peixes” (Barros, 1985:24).


Em seu discurso de posse na Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, o escritor paulistano Hernâni Donato (1922-2012), que escreveu o clássico romance Selva Trágica, ambientado nos ervais da fronteira de nosso Estado, contou que houve uma tese considerada herege durante a Idade Média, de que o paraíso de fato existiria e que, segundo estudos deixados, estaria localizado nesta região centro-oeste da América, próximo à serra de Maracaju. Escrevi:


O paraíso era aqui,

Ao pé da serra,

Onde os jequitibás se erguem frondosos,

O ar rescende a baunilha

E abrem-se os leques do buriti.


O paraíso era aqui,

Onde as laranjas ganham sumo,

Os abacates se encorpam

E a terra se trinca

De caraguatás e abacaxis.


O paraíso era aqui,

Nas matas passeiam onças pintadas,

Veados pastam flores,

Lobos de caudas vermelhas,

Lontras e quatis.


O paraíso era aqui,

Por toda parte há ouro,

Mármore ladrilhando ruas,

Blocos de diamante,

Lágrimas de rubi.


O paraíso era aqui,

Eu sinto toda vez que subo nesta pedra,

No meio do rio Taquari.


E a maçã?

Bem, poderia ter sido caju ou um caqui.


Quando penso neste sul de Mato Grosso, em sua natureza, meu coração aperta de amor no peito. Sinto-me uma nova Inocência, vestida com uma

camisola branca, recostada no beiral da janela do casarão escuro, de fronte ao pomar, ouvindo entre as folhas do laranjal, o som doce da canção de Jayme Ovalle:


-Vai, azulão, azulão, companheiro...

Vai, azulão, vai ver minha ingrata,

Diz que sem ela o sertão não é mais sertão,

Azulão, voa azulão,

Vai contar companheiro

Vai!




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