• Alex Fraga

Crítica/Dança - Permita-se sentir e saborear !

*** Texto - Luiza Rosa*** - - -

Fotos - Áurea Novaes

“Selvagem” foi a abertura de um processo de investigação artística em dança contemporânea criada pela artista Denise Ortiz, com colaboração da produtora cultural Áurea Novaes, que estreou no último sábado (30), em Dourados (cidade que fica há cerca de 240 Km da capital, Campo Grande), no simpático Studio Tiaki. Houve apenas duas apresentações.

Trata-se de um solo, em que Denise gera, diante de nossos olhos, estados corporais que garantem unidade à sua movimentação, como se fossem tons musicais que nos remetem a feixes de emoções que dão densidade àquilo que condiciona os relacionamentos. Em um modo muito apropriado de revelar-se através do movimento, Denise nos faz perceber como seu universo interior pode ser obscuro, se constituir de imagens do outro – como é o caso de quando coloca um espelho sobre seu rosto e tronco e a plateia é refletida, constituindo parte de sua imagem – e gerar paralisações. Ao fim, a artista paralisa diante do espelho, que fica sobre o chão, enquanto está em pé olhando para o seu reflexo, que parece projetá-la ao infinito.

Foi a primeira vez que Denise levou ao público uma criação sua depois de finalizar a graduação “Comunicação das Artes do Corpo”, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, que compreende dança, teatro e performance. Ainda assim, denominou sua criação como “abertura de processo”, um termo bastante utilizado por um nicho da dança contemporânea paulistana, que denomina uma partilha de criação ainda em andamento, com vistas a contribuições do público para a continuidade de seu aprimoramento. Foram quatro anos levando para a análise (lacaniana) o desejo de criar em seu retorno a Dourados, para, então, conseguir concretizá-lo.

Além das dificuldades apresentadas pelo contexto da cidade, que perpassa o ser mulher em uma região em que o machismo é naturalizado e que, apesar de contar com academias de dança e até um curso de graduação em Artes Cênicas, na Universidade da Grande Dourados, lhe garantiu poucos interlocutores para a estética que queria desenvolver mais, Denise lidou com alguns desafios que trouxe do ambiente da universidade na qual cursou sua graduação, a PUC.

“No ambiente acadêmico sentia que havia muitas exigências e muito rigor em vários âmbitos que eram específicos daquele ambiente e que, por um lado pode ser muito interessante para ampliar o conhecimento, trazer entendimento de outros contextos e mudar nossa relação com o fazer artístico, mas por outro pode trazer paralisações, medos de críticas e receios de se colocar algo no mundo que não atenda àquela rede de saber-poder.”, relatou ela, em conversa após a apresentação.

Há mais de vinte anos atrás, a artista curitibana Cinthia Kunifas teve um processo semelhante ao de Denise. Ela passou 10 anos sem conseguir criar. Dominava a técnica e estética do ballet, tendo passado pela Escola do Teatro Guaíra e pela Joffrey Ballet School, em Nova York, e dava aulas na Faculdade de Artes do Paraná, mas estava em conflito entre o que ela já conhecia, que já não a satisfazia mais, e o desejo do que poderia vir a ser. Ela conhecia uma dança que repetia padrões pré-estabelecidos, com sequenciamento de passos criados a partir de um tema exterior ao corpo.

Sua ação enquanto bailarina era a de reproduzir movimentos ou interpretar ideias propostas pelo professor ou coreógrafo, que não eram passíveis de reflexão, discussão e reorganização; não era aberto espaço para as ideias, impressões e sensações dos bailarinos. Em sua pausa, conheceu um método de respiração japonês, que a auxiliou a superar estruturas enrijecidas corporais, emocionais, de modos de relacionamento, de conceber a dança. Segundo ela, em entrevista concedida a Gladis Tridapalli e Cézar Tridapalli, em 2020: “eu não sabia o que era energia, eu tenho energia, eu sou energia e posso me mover desse jeito. Nesse momento, um mundo todo se abriu.”.

Em colaboração com a artista Monica Infante, Kunifas criou o trabalho “Corpo desconhecido” (2003) que, por sua pesquisa ter sido contemplada pelo programa Rumos Dança Itaú Cultural, ganhou bastante visibilidade no país. O que se vê, nesse trabalho, é um corpo em pé, coberto por um vestido. Nos trinta minutos de duração da obra, o corpo vai lenta e quase imperceptivelmente curvando-se em direção ao chão. Superada a paralisia criativa, Kunifas dá um recado: “Não desconfie que você está vivo, que você pode sentir a vida e que ela se dá em você, por você, que você é uma presença viva no mundo. Para mim a dança é um prolongamento disso, um jeito de existência dessa força vital.”.

É curioso que Denise Ortiz tenha passado por conflito semelhante ao de Cinthia Kunifas, mesmo em um intervalo grande de tempo entre as duas situações e mesmo não estando em contato com a mesma concepção de dança. Apesar de fomentar um olhar sobre a dança com uma ótica aparentemente liberadora, com abertura para singularidades e para fluxos de discussões com outras áreas do conhecimento (científicos, filosóficos) que poderiam contribuir para olhar a arte, o corpo e seu funcionamento de forma mais complexa, o ambiente puquiano parece estar produzindo outro padrão de relações de poder com a mesma rigidez daquela concepção de dança que criticam, autorizando e desautorizando o que é certo, o que é errado, o que pode, o que não pode, o que é artístico e o que não é artístico. A lógica que estava embasada na disciplina ali pode ter assumido apenas outro rosto, o do controle. Talvez por isso Denise intitule seu trabalho de “Selvagem”, porque escapa desse controle tão eficazmente construído, mas também porque escapa do feminino mais amplamente performado na cidade onde vive.

Observando isso, pergunto: de que forma pode ser profícua a relação entre o artista e o ambiente universitário? Suponho que Santo Inácio de Loyola (1491-1556) dê um norte quanto a isso, quando diz: “não é o muito saber que sacia e satisfaz, mas o sentir e saborear as coisas internamente.”.

*** É doutora e mestra em Comunicação e Semiótica (PUC-SP), com especialização em Dança (UCDB) e graduação em Jornalismo (UFMS).

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