Crítica - Alexandre Pires brilha, mas parte da plateia desafina!
- Alex Fraga

- há 6 dias
- 3 min de leitura

Antes mesmo de Alexandre Pires subir ao palco, o público já percebia que o espetáculo havia começado. Mais uma vez, a parceria entre Pedro Silva Promoções e Jamelão demonstrou competência ao trazer para Campo Grande uma produção de grande porte. Em tempos em que muitos eventos concentram esforços apenas na atração principal, houve um cuidado evidente com toda a experiência do público: organização desde a abertura dos portões, atendimento eficiente dos garçons, equipe de segurança discreta e preparada e uma estrutura técnica de alto nível, com palco, iluminação e sonorização à altura da expectativa.
Quando Alexandre Pires entrou em cena, a produção cedeu espaço ao protagonista da noite. Durante mais de duas horas, o cantor conduziu uma viagem por diferentes momentos de sua carreira. Os clássicos que o transformaram em um dos maiores nomes do samba dividiram espaço com o repertório do projeto Pagonejo Bão, proposta que aproxima o pagode do universo sertanejo sem descaracterizar nenhuma das duas linguagens.
A música popular sempre viveu de encontros. O samba já dialogou com o rock, a MPB absorveu elementos do jazz, a música erudita encontrou o heavy metal e o sertanejo passou, há muito tempo, a compartilhar espaço com praticamente todos os gêneros de grande alcance comercial. O risco dessas aproximações é que a mistura se transforme apenas em estratégia de mercado. O mérito está em fazê-la soar orgânica.
É justamente aí que reside a força de Pagonejo Bão. Alexandre Pires não tenta reinventar o pagode nem o sertanejo. Sua proposta parte da percepção de que ambos compartilham uma mesma essência sentimental, construída sobre histórias de amor, saudade, celebração e música popular. A transição entre um universo e outro acontece naturalmente, sustentada pela experiência de um artista que conhece profundamente os repertórios que interpreta.
Alexandre Pires já não precisa provar mais nada. Desde os tempos do grupo Só Pra Contrariar, consolidou-se como uma das vozes mais importantes da música brasileira. No palco, essa maturidade aparece na segurança vocal, na condução da banda e na relação espontânea com a plateia. Canções como "Depois do Prazer", "Essa Tal Liberdade", "Domingo", "Mineirinho" e "Você Virou Saudade" transformaram o Bosque Expo em um grande coro coletivo, enquanto sucessos sertanejos surgiam de forma natural, sem a sensação de serem apenas um recurso comercial.
Tecnicamente, o espetáculo apresentou um padrão elevado. Som equilibrado, iluminação eficiente, músicos precisos e uma produção que respeitou o público ao cumprir rigorosamente o horário anunciado. Em um mercado onde atrasos frequentemente são tratados como parte do entretenimento, a pontualidade também comunica profissionalismo.
Mas o principal problema da noite não estava no palco.
Parte da plateia, especialmente no setor de mesas, parece desconhecer um princípio básico da convivência em espetáculos: o direito do outro de assistir ao show. Muitas pessoas permaneceram em pé durante longos períodos, bloqueando completamente a visão de quem pagou justamente por um espaço destinado a acompanhar a apresentação sentado e com maior conforto.
Não se trata de defender um público imóvel ou silencioso. Shows populares existem para serem cantados, celebrados e vividos intensamente. A questão é simples: entusiasmo não pode servir de justificativa para desrespeitar quem está ao lado. Há setores destinados ao público em pé e outros planejados para quem prefere assistir ao espetáculo com comodidade. Ignorar essa diferença transforma uma escolha individual em prejuízo coletivo.
O episódio evidencia uma deficiência recorrente na cultura dos grandes eventos em Campo Grande. Investe-se cada vez mais em estruturas modernas, conforto, tecnologia e grandes atrações nacionais, mas pouco se discute sobre educação para a convivência em espaços culturais. A qualidade de um espetáculo não depende apenas do artista ou da organização; ela também é construída pela postura da própria plateia.
Ao final, Pagonejo Bão confirmou que Alexandre Pires permanece entre os artistas mais completos da música brasileira. O espetáculo entregou exatamente o que prometia: qualidade musical, repertório consistente e um intérprete plenamente consciente de sua trajetória. Se alguma nota saiu desafinada naquela noite, ela não veio do palco, mas de uma parcela do público que ainda parece não compreender que respeito também faz parte do ingresso.





Assisti o show. Crítica certíssima.
Ney Lopes
Campo Grande MS
Que critica perfeita. Fui ao show e foi realmente isso
Carla Marques
Campo Grande MS
Jornalista de uma visão diferente e profissional. Parabéns pela crítica.
Fabiana Fernandes - Belo Horizonte MG
Alex Fraga sem dúvida é o melhor jornalista crítico de Mato Grosso do Sul. Parabéns
Bernadete Pessoa
Jardim MS
Escreveu tudo que senti. Aqui em Campo Grande as pessoas não respeitam o espaço do outro. Mas o show foi lindo.
Marcelle Pinto
Campo Grande MS