Conto - Todo dia é Dia de Judas, por João Francisco Santos da Silva
- Alex Fraga

- há 7 dias
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Sábado no Blog do Alex Fraga é dia de Conto com o médico clínico geral, acupunturista e escritor de Campo Grande (MS), João Francisco Santos da Silva, com Todo dia é Dia de Judas
Todo dia é Dia de Judas
A pancadaria comia solta. De porrete na mão, o rapaz divertia-se. Com sangue nos olhos, extravasava ali ressentimento antigo. O traidor merecia o linchamento. Ele não cansava de dar pauladas e chutes no indefeso caído no chão. Depois partia para os xingamentos, cuspia na cara, e, por fim, ateava fogo. Sádico, a fumaça e o cheiro de queimado lhe estimulavam. Tinha fúria e folego suficientes para seguir o sábado inteiro no mal feito.
Culpa da mãe desatenciosa, o filho virar o que virou. Faltou pagar uma boa psicoterapia. Depois de feito o estrago, o problema sobra para sociedade. Com o tempo, o distúrbio comportamental agravou-se progressivamente. O rapaz caiu no mundo das políticas e não conseguiu libertar-se. No início era apenas um inofensivo vereador e achava que poderia sair quando quisesse. Cada vez mais adicto, seguiu seus instintos e se afundou. De prefeito a governador foi um pulo. Insaciável, precisava mais, ministro, presidente, quem sabe a Groenlândia?
Mas a mãe não foi a única culpada, o menino cercou-se de más companhias. Entendimento complicado esse entre sogras e noras. A mãe perdeu as contas de quantas primeiras-damas ocuparam o posto. Umas mais astutas, venciam a eleição sem ganhar um único voto. Outras, mais autoritárias, se pudessem seriam rainhas e não primeiras-damas. É assim que as coisas não funcionam entre casais: um manda e outro desmanda.
Não causa boa impressão ser primeira-dama de um Judas. No ano passado o marido foi o Judas mais malhado no Sábado de Aleluia. Só na cidade onde nasceu teve mais de 20 bonecos com a sua cara ao alcance das mãos e da saliva do eleitorado. Problema resolvido por decreto. De agora em diante, fica proibido a malhação de Judas. Simples assim, não seria mais mulher do Judas e continuaria primeira-dama.
Impostor, falso, foi só ter um pouco de poder para esquecer as origens. O homem era o primeiro e mais entusiasmado na malhação do Judas e agora quer estragar a farra dos outros. Sem vergonha, pau mandado pela mulher e ladrão. Ladrão sim! Roubou a ilusão do povo. O Sábado de Aleluia era o única ocasião em que se podia inverter os papéis. As pessoas deixavam de ser o Judas e, por algumas horas, fingiam ter poder para judiar de quem lhes judiava o ano inteiro.
Moral da história: não há.





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